Artigos próprios Sexismo

O efeito poste de luz na ciência e na pesquisa

F1.large“Um policial, andando à noite por uma rua escura, avista um homem bêbado procurando por algo sob a luz de um poste. Ele se aproxima e pergunta pelo que o bêbado está procurando. O bêbado responde: estou procurando as minhas chaves. O policial começa, então, a ajuda-lo. Passados alguns minutos, sem êxito, o policial pergunta ao bêbado se ele está certo de que perdera suas chaves ali, e o bêbado responde: “Não, eu as perdi a dois blocos daqui”. Intrigado, o policial, então, pergunta por que é que ele estava procurando as chaves ali, e o bêbado responde: “Porque aqui a luz está bem melhor”. (adaptado dos quadrinhos Mutt e Jeff, 1942)

A metáfora acima é comumente conhecida como efeito poste de luz (do inglês Streetlight Effect), e seu uso mais remoto data de quase cem anos atrás. Apesar disso, o Efeito Poste de luz, hoje, ainda pode ser detectado vez ou outra em certas .pesquisas, inclusive científicas e acadêmicas.

“Pesquisadores tendem a procurar por respostas onde é mais fácil de se olhar, e não onde provavelmente estão se escondendo.” – David H. Freedman

Se considerarmos a luz do poste como o conhecimento já existente (ou preconceitos), o bêbado como o cientista, e as chaves como as respostas, podemos perceber que pesquisadores das mais diversas áreas tendem a se comportar exatamente como o personagem da anedota.

Na década de 1980 [1] havia um grande entusiasmo sobre o lançamento de drogas anti-arritmia cardíaca. Pacientes que faziam uso daquelas drogas tinham batimentos cardíacos mais regulares. No entanto, na década de 1990, cardiologistas descobriram que os pacientes tinham três vezes mais chances de morrer, e que cerca de 56 mil mortes anuais por ataque cardíaco podiam ser atribuídas aos efeitos das drogas utilizadas no tratamento da arritmia cardíaca. Os pesquisadores focaram tanto nos efeitos benéficos conhecidos que ignoraram outro gravíssimo a longo prazo: a morte.

Três décadas antes, outra droga chamada talidomida apresentava efeitos promissores e consistentes que rapidamente a fizeram ganhar o mercado. A talidomida foi descoberta como sedativo/tranquilizante, mas logo começou a ser usada para tratar resfriados, gripes e náuses, principalmente em gestantes. Nos anos subsequentes a quantidade de bebês nascidos com deformações teve um salto. Com mais pesquisa, a associação da talidomida e a deformação congênita dos bebês ficou clara. No final da década de 50, o uso de Talidomida foi responsável por mais de 10 mil nascimentos de crianças com deformidades em 56 países [2]. Mais uma vez, os pesquisadores focaram tanto nos efeitos positivos do tratamento que acabaram por ignorar um detalhe muito importante: a talidomida jamais poderia ser utilizada por gestantes nos primeiros meses.

O efeito poste de luz é, por vezes, um viés de seleção amostral onde o pesquisador seleciona acidentalmente, ou mesmo intencionalmente, um grupo de amostras que

  • I. É mais fácil de ser analisado por algum motivo;
  • II. Naturalmente não são amostras representativas da população geral, ou;
  • III. Se encaixam a priori numa pressuposição ou premissa não justificada, falsa, ou falaciosa.

Nesse aspecto podemos citar, por exemplo, pesquisas sexistas sobre violência de gênero nas universidades. Recentemente os Institutos AVON e Data Popular, em Parceria com a ONU Mulheres, realizaram uma pesquisa estatística na UFSCAR [3] que analisava a ocorrência de violência contra mulheres universitárias e violência praticada por homens universitários.

Por incrível que pareça, os dois grupos avaliados (Homens e Mulheres) responderam perguntas totalmente distintas, como “Você, pessoalmente, já sofreu algum tipo de violência nas dependências da instituição de ensino superior em que estuda ou em festas acadêmicas, competições ou trotes?”, exclusiva para mulheres;  e “Você já fez alguma das seguintes ações com uma mulher nas dependências da instituição de ensino superior em que você estuda ou em festas acadêmicas, competições ou trotes?”, exclusiva para homens – reparem que as perguntas englobam também ambientes e situações que não necessariamente fazem parte das dependências da instituição e não necessariamente dizem respeito a mulheres ou homens exclusivamente universitários. Além disso, os próprios entrevistadores confessamente incitam as mulheres a responderem de forma positiva com uma lista de violências por escrito caso haja uma resposta negativa.

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Aqui podemos identificar três tipos de vieses metodológicos.

  • O primeiro é prosseguir com uma análise sob falsas premissas básicas: a) mulheres só sofrem violência provinda de homens e não de outras mulheres; e b) violências cometidas por mulheres contra homens ou mulheres são irrelevantes ou inexistentes. c) mulheres falam a verdade quando dizem que foram abusadas, mas homens mentem quando dizem que não abusaram.
  • O segundo é escolher um grupo não representativo da população geral universitária pela forma de coleta dos dados, que permite contabilizar violência de indivíduos que não têm qualquer vínculo com a universidade e em locais sem qualquer relação com as dependências da universidade.
  • O terceiro é não analisar números iguais, ou próximos, de homens e mulheres e ainda comparar números absolutos de violências, ao invés de números relativos.

Além de tudo isso, a pesquisa se aproveita da subjetividade da percepção de “agressão” para afirmar objetivamente que houve agressões contra mulheres. Por exemplo: o que seria uma cantada ofensiva? Ora, uma cantada ofensiva é aquela na qual a pessoa se sente ofendida, e pessoas podem se sentir ofendidas por literalmente qualquer coisa. A mesma coisa pode ser ofensa num caso e não noutro. O critério aqui é completamente subjetivo, e ainda foi influenciado pelo  entrevistador com a lista de “violências”.

No fim, esses vieses metodológicos, e ideológicos, fazem com que a realidade seja distorcida pela incompetência e parcialidade dos pesquisadores, que sob a luz dos seus preconceitos fazem análises toscas e que não representam fielmente ou aproximadamente a realidade objetiva.

Outro tipo de pesquisa costumeiramente enviesada da mesma forma são as referentes às diferenças salariais médias entre homens e mulheres, onde o único e exclusvo fator analisado é o salário médio das populações em função do gênero. Exclui-se por exemplo o tempo de trabalho no ramo, a experiência prévia, as qualificações individuais, horas extra, natureza do período de trabalho, e muitas outras.

“As far back as 1971, single women in their thirties who had worked continuously since high school earned slightly more than men of the same description.” – Thomas Sowell [4]

Quando homens e mulheres são comparados individualmente e possuem exatamente os mesmos parâmetros relacionados ao trabalho, não existe qualquer de diferença salarial pelo mesmo serviço.

E este é o caso de muitas outras pesquisas que tentam fazer recortes de gênero. O Streetlight Effect poderia ser explicado, em uma parte, pela influência das preconcepções da academia e do pesquisador, que o levam a desenvolver metodologias para a) corroborar com as próprias crenças e com os resultados esperados, ou b) não contrariar as crenças estruturadas na comunidade acadêmica. Em outra parte poderia ser explicado pela pura desonestidade intelectual, falta de caráter ou, por último, talvez por algum tipo de entusiasmo exacerbado em relação ao objeto de estudo: quando as emoções tomam as rédeas da pesquisa, o resultado por certo que será ruim.

É necessário nos atentarmos à importância da análise crítica e imparcial de conteúdos que circulam nos espaços virtuais e na academia, de forma a identificar falhas metodológicas cruciais, bem como outras implicações das premissas iniciais e metodologias utilizadas no desenvolvimento de alguns trabalhos. Isso mostra  como certos grupos falham em manter a objetividade e o zelo pelas suas produções, e mostra que, especialmente instituições e pessoas engajadas emocionalmente, no geral, produzem trabalhos pouco criteriosos, superficiais, e que tendem a conclusões não verdadeiras em um alto número de vezes.

Referências

[1] H. FREEDMAN, David. “Why Scientific Studies Are So Often Wrong: The Streetlight Effect”; disponível em http://www.sjsu.edu/people/fred.prochaska/courses/ScWk240/s3/Freedman-Week-15.pdf

[2] BREN, Linda. “Frances Oldham Kelsey: FDA Medical Reviewer Leaves Her Mark on History”, 2001, disponível em https://permanent.access.gpo.gov/lps1609/www.fda.gov/fdac/features/2001/201_kelsey.html

[3] AVON/Data Popular. “Pesquisa de Violência contra a mulher no ambiente universitário”, disponível em http://www.ouvidoria.ufscar.br/arquivos/PesquisaInstitutoAvon_V9_FINAL_Bx20151.pdf

[4] SOWELL, Thomas. “Wealth, Poverty and Politics”, disponível em https://books.google.com

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