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Misandria mata: 91,8% das pessoas assassinadas no Brasil são homens

Rio de Janeiro, 21 de novembro de 2020
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Se você achou que a relação estabelecida na manchete deste post é absurda, então estamos de acordo. O título é retórico: este post não irá defender que misandria seja o motivo pelo qual 91% das pessoas vítimas de assassinato no Brasil são homens. A manchete foi escrita desta maneira para fazer espelho a um post da ONG identitarista “Observatório do Terceiro Setor”, que diz o seguinte: “Racismo mata: 71% das pessoas assassinadas no Brasil são negras“.

Anteontem foi o Dia Internacional do Homem e ontem foi o Dia da Consciência Negra no Brasil. Anteontem um homem mulato morreu após ter sido espancado por seguranças de um hipermercado. Embora as circunstâncias gerais sobre a ocorrência estejam longe de esclarecidas, muitas pessoas já têm em mente suas teses sobre as motivações do fato.

De um lado, e amplamente majoritária, existe a tese de que o homem morreu por ser negro, embora na verdade fosse mulato. Segundo esta tese: defendida pela grande imprensa, por boa parte dos opinadores de redes sociais e por todos os que depredaram unidades do Carrefour e agrediram seus funcionários na noite de ontem, os seguranças não teriam agido daquela maneira se o envolvido na confusão fosse loiro.

Por outro lado, em menor número, há quem defenda categoricamente a tese de que o mulato morreu por ser homem. Para estes, os seguranças reagiram de modo instintivamente violento e desproporcional pelo fato de que a confusão original era entre um homem e uma mulher. Os seguranças teriam agido como cavaleiros brancos. Cavaleiro branco é um termo usado para se referir à pessoa que, ao observar qualquer conflito verbal ou físico entre um homem e uma mulher, age violentamente contra o homem, sem considerar a proporcionalidade (ou seja: pode espancar um homem que apenas xingou uma mulher) ou a justiça (ou seja: se colocará do lado da mulher mesmo que ela seja a agressora).

Há também os que não possuem teses definidas sobre o ocorrido, entre os quais me incluo: o homem morto no hipermercado tinha uma história pregressa de inúmeros problemas com a polícia, alguns dos quais já haviam resultado em condenação.

Sobre a confusão que culminou em sua morte pouco se sabe: não se sabe sequer quem deu início à disputa e por qual motivo. Ele teria sido falsamente acusado de furto? Ele teria sido corretamente acusado de furto? Ele teria reclamado aviltantemente da demora na fila? Ele teria sido tratado grosseiramente ao reclamar de um preço errado na gôndola?

Não se sabe também a cascata de eventos que levou do bate-boca com a funcionária até os socos pelo segurança. Uma das funcionárias confessou ter dito que ordenaria aos seguranças que o largassem, se ele se acalmasse: o que houve nos momentos anteriores ao recorte de filmagem que foi divulgado pela mídia? Ele já teria sido solto em algum momento e – ao se ver liberto – partiu violentamente contra os agentes? Me parece impossível definir a motivação e até a existência ou não de crime por parte dos seguranças sem estes elementos.

Cavaleiros brancos existem: em disputas entre homens e mulheres é comum que alguns homens hajam desproporcionalmente a favor da mulher, mesmo quando ela é a agressora. O vídeo abaixo é apresentado como um experimento público, onde um ator e uma atriz encenam agressões começadas por ela e revidadas por ele. Na internet é possível encontrar outros vídeos, não encenados, com o mesmo roteiro. Você provavelmente já viu cenas semelhantes em brigas de família ou na escola. É possível que o fato de ser homem tenha colaborado para que João Alberto tenha sido morto, mas isto não pode ser afirmado como fato a partir das informações que temos sobre o caso.



Racismo e preconceito social contra negros também existem: é bem estabelecido que, em diversas situações sociais, negros sejam alvo de tratamento diferenciado e negativo. Tribunais do mundo todo parecem ser mais propensos a aplicar penas mais pesadas a pessoas negras em comparação a pessoas brancas (e também mais pesadas contra homens que contra mulheres) mesmo diante de crimes idênticos, por exemplo.

Isto não significa que possamos reduzir a interpretação dos fatos e das estatísticas a uma das variáveis acima.

Homens, e negros, são a maioria das vítimas de assassinato; homens, e negros, são a maioria dos autores de assassinato. Cada caso de assassinato tem uma história em separado: há mulatos e negros honestos que foram assassinados por terem sido confundidos pela polícia com assaltantes? Sem a menor sombra de dúvidas. Todavia há negros que foram assassinados por rivais do mundo do crime, e estes são muitos. Há homens que foram assassinados por conta da confiança exagerada que a sociedade dá a uma mulher que alega ter sido vítima de estupro? Sem a menor sombra de dúvidas. Porém há homens que são assassinados por serem assaltantes, e estes são muitos.

Atribuir ao racismo a razão primária da morte de um mulato qualquer, atribuir à misandria a razão primária do assassinato de qualquer homem em específico, tratar o preconceito contra homens como explicação basal para o fato de que 91,8% das vítimas de assassinato são pessoas do sexo masculino, tratar o preconceito contra negros o fato de que 71% das vítimas de assassinato são pessoas de pele parda ou preta é igualmente rasteiro.

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