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Especialista em leitura labial diz que Bruno Henrique cometeu injúria racial antes de Ramirez

Rio de Janeiro, 23 de dezembro de 2020
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As narrativas sobre injúrias raciais contra negros começam a se repetir com mais frequência, e os roteiros das narrativas também se repetem.

Há menos de um mês, na Liga dos Campeões, um árbitro foi acusado de racismo por ter se referido a um membro da comissão técnica do Basaksehir como “aquele negro”. No mesmo jogo, o tal árbitro foi chamado de “aquele cigano” pelo técnico do mesmo time daquele negro.

A histeria coletiva foi apenas em torno da fala do árbitro: teve paralisação do jogo, teve hashtag, teve celebridade dando pitaco, teve todo o carnaval que conhecemos bem. Quanto à fala do técnico, não houve histeria. Chamar de “aquele cigano” parece que pode.

No domingo passado, durante um jogo do Brasileirão, dois mulatos que jogam no Flamengo acusaram um jogador, colombiano, do Bahia de ter feito alusões pejorativas de cunho étnico.

Como já comentei em um post anterior, estádios de futebol são palcos perfeitos para a troca de ofensas: elas geralmente começam na abertura dos portões, com os primeiros torcedores subindo as rampas de acesso, e só terminam instantes antes das luzes se apagarem.

O torcedor do Vasco ofende ao torcedor do Flamengo com xingamentos “pobrefóbicos”: para o vascaíno, o flamenguista será sempre o mulambo. Pouco importa que boa parte dos vascaínos seja também muito pobre e que boa parte dos flamenguistas seja formada por ricos: o coro de “Favela, favela, silêncio na favela” será uníssono na arquibancada cruzmaltina após um gol do time de São Cristóvão e será entoado aos berros mesmo pelos torcedores do Vasco que morem em favelas, faz parte da festa.

Já para os flamenguistas os tricolores são homossexuais, os vascaínos são portugueses filhos da puta, os botafoguenses são uma cachorrada. Pouco importa que a primeira torcida organizada LGBT do Rio tenha sido a Fla-Gay e não a Flu-Gay: nas arquibancadas se ouvirá que ô ô, ô ô, todo viado que qualquer flamenguista conhece é tricolor.

Quando o jogo começa, as injúrias se proliferam: da arquibancada, elas atingem o juiz, o jogador do próprio time, o craque do time adversário, o técnico. Entre os astros do espetáculo, os xingamentos são entre jogadores do mesmo time, entre atletas dos times adversários, entre os técnicos e os jogadores, entre os bandeirinhas e os técnicos. Xingamentos são comuns e corriqueiros no futebol.

Magicamente, parece haver uma exceção: xingar de negro não pode. Pode xingar de filho da puta, de maricón, de argentino safado, de mulambo, de viado, de ladrão, de português filho da puta, de gringo de merda. Mas se chamar de negro, a Vera Verão roda a baiana: “Eêêêêêêêêpaaaaa! Veja lá como fala, sua sirigaita!”


Jornal Nacional exibiu trechos do jogo entre Bahia e Flamengo no Maracanã, domingo passado. Num momento o colombiano tenta se afastar pacificamente enquanto o carioca o persegue. Bruno Henrique gesticula, berra no ouvido do colombiano, estufa o peito.

Não se ouve o que mulato fala, mas Luis Felipe Ramos Barroso, um dos especialistas em leitura labial entrevistados pela Rede Globo, afirma que foi Bruno Henrique chamou o colombiano de “gringo de merda” e só então o jogador do Bahia teria respondido com uma menção à etnia do flamenguista.

Pela lei brasileira, a ofensa com base em nacionalidade é uma das formas típicas de injúria racial (assim como as ofensas com base em religião e em cor ou raça). Desta forma, confiando no que um dos especialistas entrevistados pela Rede Globo afirmou, Bruno Henrique teria cometido injúria racial contra Ramirez antes de sofrer o mesmo de tipo de injúria por parte do colombiano. A fala “Está falando demais, seu negro!” teria sido uma resposta a uma série de desaforos cometidos pelo Bruno Henrique que teria incluído um “Gringo de merda!”.

No caso do PSG vs Basaksehir parece não ter havido ofensas racistas de nenhum dos dois lados, um árbitro identificou inocentemente um membro da comissão técnica pela sua etnia, um técnico identificou um árbitro inocentemente pela sua etnia, mas o ativismo vitimista fez carnaval apenas sobre o ato inocente do árbitro. No caso do Flamengo vs Bahia parece ter havido injúria racial de ambos os lados.

Eu sou do time que defende que injúrias não deveriam ser punidas pelo Estado, e muito menos num estádio de futebol. Considero que trocas de injúrias são dissabores do dia-a-dia, cometidos e sofridos por literalmente qualquer ser humano o tempo todo. E que, no caso particular de uma partida de futebol, elas fazem parte da festa. Por mim, o artigo 140 do CP poderia ser dado como letra morta.

Mas, se vamos punir quem comete injúrias, é preciso (no mínimo) punir quem xinga de “gringo de merda” com a mesma pena com que se pune quem diz “está falando muito, seu negro”. Punir só o segundo caso é racismo, em todo o seu esplendor.

PROJETOS DE LEI PROPÕEM DESCRIMINALIZAÇÃO DA INJÚRIA: UM DELES PROPÕE DESCRIMINALIZAÇÃO DE UMAS E AUMENTO DA PENA DE OUTRAS

Pesquisando para a elaboração deste post, acabei descobrindo que existem três projetos de lei tramitando no Congresso que propõem que o crime de injúria deixe de existir. São eles o PL 7475/17, do ex-deputado Veneziano Vital do Rêgo; o PL 11218/18, da deputada Clarissa Garotinho; e o PL 2287/19, do deputado Vinicius Poit. O da Clarissa é grotesco, ela pretende descriminalizar alguns tipos de xingamentos ao mesmo tempo que aumenta a pena de outros.

Pela lei atual, se você chamar um jogador adversário na pelada do bairro de “gordo filho da puta” você pode ser processado e condenado a 6 meses de detenção. Ocorre que se você chamar o mesmo jogador de “gordo macumbeiro argentino preto filho da puta” a pena sobe para até 3 anos de reclusão.

O projeto da Clarissa diz o seguinte: “Descriminaliza certos atos contra a honra, aumenta a pena para o crime de injuria quando utilizado elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência e dá outras providências.”. Ou seja: se você tivesse numa discussão e chamasse alguém de “gordo favelado filho da puta”, você não poderia ser preso. Mas se, na mesma discussão, você chamasse o gordo favelado de “argentino católico filho da puta”, aí tu ia tomar até 4 anos de cana.

Pelos projetos de Vinícius e de Veneziano (com os quais concordo), tanto “gringo de merda” quanto “fala muito, seu negro” não seriam mais passíveis de punição com base no Código Penal. Pelo projeto de Clarissa, ambos poderiam gerar pena de até 4 anos. Que tipo de injúria a filha do casal de criminosos condenados merece receber por um projeto estúpido deste?

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