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Medidas estatais contra o Covid-19: um olhar sobre os dados internacionais

Rio de Janeiro, 02 de janeiro de 2021
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Às vésperas do reveillon 2021, uma enorme balada LGBT lotou a praia de Ipanema, um dos bairros mais nobres do Rio de Janeiro. O número de cidades paulistas que vêm rejeitando as normas estaduais estabelecidas por João Doria tem aumentado no mesmo ritmo com que o governador determina regras cada vez mais rígidas. Búzios, Manaus, Juiz de Fora são algumas cidades que se amotinaram contra determinações estatais para que deixassem de trabalhar ou se divertir.

Desde os primeiros meses da pandemia do novo coronavírus, há uma tensão entre dois grupos: o dos que defendem que para combater a pandemia de Covid-19 é necessário que pessoas sejam proibidas pelo Estado de seguirem as próprias vidas de acordo com suas próprias prioridades (incluindo-se as proibições de trabalhar, de se divertir com amigos, de respirar livremente, de visitar parentes…) e o dos que acreditam que cada cidadão deve ter o direito de estabelecer suas próprias prioridades e estratégias de sobrevivência diante da nova doença e dos demais desafios da vida.

A origem deste conflito de visões nasceu na Inglaterra, dentro dos laboratórios de modelagem estatística liderados pelo pesquisador Neil Ferguson. Ferguson defendia – a partir de certos modelos matemáticos – que a contenção da pandemia seria determinada sobretudo pela capacidade dos Estados de impedir que seus cidadãos vivessem de acordo com suas vontades individuais.

Para que a pandemia fosse contida, Ferguson propôs, seria necessário impedir restaurantes de funcionar, impedir shoppings de abrir, impedir linhas de ônibus de circular, impedir cidadãos de ir à praia, impedir famílias de se visitarem, impedir amantes de se encontrarem.

Ferguson propôs um cenário apocalíptico atrelado à desobediência das prescrições. Onde as pessoas fossem trancafiadas e isoladas, impedidas de circular pelas cidades e de frequentar shows, escola, estádios de futebol, trabalho, casa de amigos e centros de compra e lazer poucos milhares morreriam. Onde as pessoas continuassem liberadas para agir cotidianamente, de acordo com suas prioridades, milhões morreriam.

O epidemiologista abandonou o cargo que exercia no governo britânico quando foi flagrado quebrando uma das suas regras. Ele próprio havia furado a quarentena, para se encontrar com uma amante. Mas a este ponto as ideias de Ferguson já haviam tomado conta do planeta: em virtualmente todos os países houve sanções aplicadas aos cidadãos de acordo com as prescrições do guru britânico. Em alguns elas foram mais rígidas e em outros menos. Pelo modelo proposto por Ferguson, quanto mais rígidas fossem as prescrições, mais efetiva seria a contenção da pandemia.

Após 9 meses de comércios fechados, de transportes públicos interrompidos, de praias interditadas, de eventos cancelados ao redor do mundo, podemos tentar comparar os resultados de diversos países de acordo com o quanto limitaram a vida de seus cidadãos através de normas proibitivas das mais diversas. Para fazê-lo é preciso acessar os dados sobre mortes atribuídas ao novo coronavírus em diversos países e também os dados do Índice de Rigor da Resposta Governamental estabelecido pela Universidade de Oxford. Este índice mensura a intensidade de cada país em relação à adoção de medidas como fechamento do transporte público, proibição de aglomerações, obrigatoriedade do uso de máscaras, interrupção das atividades escolares, impedimento da abertura de comércios “não essenciais”. São mensurados também medidas não restritivas tais como testagem em massa ou rastreamento de contágio.

Será que os países cujos governos aplicaram medidas mais intensas contra o novo coronavírus foram os que mais obtiveram sucesso em relação à disseminação da nova doença?

AMÉRICA DO SUL: URUGUAI NUMA PONTA, ARGENTINA NA OUTRA

Dois países imensamente próximos geográfica e culturalmente não poderiam estar mais distantes quando se trata de medidas e resultados diante da pandemia do novo coronavírus chinês: um deles – a Argentina – teve a mais rigorosa quarentena do planeta, comércio proibido de funcionar por meses a fio (exceto nos setores que o governo entendeu como sendo “essenciais”), 40% dos restaurantes da capital tendo falido definitivamente em função das medidas restritivas rigorosas, proibição durante meses de que os cidadãos se deslocassem de uma província a outra.

Já o Uruguai é o país sul-americano que ao longo de toda a pandemia aplicou as medidas mais brandas: no Uruguai, os shoppings e restaurantes não foram fechados em momento algum; não houve um só dia em que o transporte público tenha sido impedido de circular; as escolas até fecharam, mas reabriram logo; houve obrigação do uso de máscaras, mas limitado a alguns poucos espaços, notadamente os transportes públicos.

O Brasil foi classificado, durante quase toda a pandemia, em um estágio intermediário de rigor entre a Argentina e o Uruguai. Graças à nossa organização federativa e à disputa entre o poder judiciário e o poder executivo federal, o Brasil não teve um protocolo único em relação às medidas governamentais, variando imensamente de estado para estado. Os gráficos abaixo mostram a comparação entre Brasil, Argentina e Uruguai, entre o Uruguai e todos os demais países do continente para os quais há dados e entre a Argentina e os demais países do continente.

Argentina foi o país sul-americano com regras mais rígidas. Uruguai foi o com menor rigidez. Brasil ficou em posição intermediária, mais próximo que da Argentina que do Uruguai. Argentina é o segundo país com mais mortes por milhão. Uruguai é o segundo com menos mortes, oficialmente.

Como se observa no gráfico mais acima, a Argentina teve regras mais rigorosas que o Brasil durante TODA a pandemia. O Uruguai, por sua vez, esteve abaixo do Brasil durante quase todo o ano. De fato, mostram os dois gráficos menores: durante a maior parte dos últimos nove meses o governo uruguaio foi o que aplicou medidas menos rígidas, o inverso sendo observado na Argentina. Era de se esperar que o Uruguai apresentasse péssimos resultados, e a Argentina ótimos. Não foi o que ocorreu.

A Argentina tem hoje 954 mortes por milhões de habitantes, um pouquinho pior que o Brasil com suas 916 mortes por milhão e muito pior que o Uruguai, com suas “apenas” 55 mortes por milhão.

O Uruguai é, hoje, o segundo país com menos mortes da América do Sul (tem mais mortes que a Venezuela), enquanto a Argentina é o segundo país com mais mortes (tem menos mortes que o Peru). Os dados da Venezuela, contudo, assim como os dados de outras ditaduras, têm sido colocados sob suspeita por organismos internacionais. É bastante provável que – de fato – o Uruguai tenha os menores números reais de mortes na América do Sul, mesmo tendo sido o país que menos impôs novas obrigações e restrições contra seus cidadãos.

EUROPA: NADA DE MUITO DIFERENTE

Vamos ver como estão os países da Europa (excluídos, por enquanto, os estados-cidade e os países do Leste Europeu)?

Na Europa as regras oscilaram mais que na América do Sul. Em muitos países houve sucessivas ondas de relaxamento e recrudescimento das regras, entretanto alguns se destacaram no topo e outros na base. Destes, os que se destacam, estão o Reino Unido (que teve regras mais rígidas que a maioria dos vizinhos durante toda a pandemia), a Islândia e a Noruega (que tiveram regras menos rígidas que a maioria dos vizinhos, na maior parte dos últimos nove meses).

Novamente, a intensidade das regras falha em prever um menor número de mortes por milhão. Novamente ocorreu o perfeito oposto: Islândia e Noruega, os dois países que menos aplicaram sanções rigorosas contra seus cidadãos, são também os dois países (exceto as cidades-Estado de Mônaco e do Vaticano) com o menor número de mortes. Já o Reino Unido ( único país europeu que nunca esteve abaixo de 60 pontos no índice de Oxford), figura em terceiro lugar (excluída a cidade-Estado de San Marino).

A maioria dos países europeus oscilou bastante quanto ao Índice de Rigor da Resposta Governamental, desenhado por Oxford. O único que nunca esteve acima da linha de 60% foi a Islândia (país com menor número de mortes da Europa, excluídos o Leste e as cidades-estado). Reino Unido foi o único que sempre esteve acima da mesma linha.

LESTE EUROPEU

No Leste Europeu está um dos países – senão o país – que menos determinou sanções estatais em função do novo coronavírus chinês em todo o mundo. Durante toda a pandemia, o governo da Bielorrússia não aplicou quase nenhuma das sanções estatais a que fomos acostumados a chamar de “novo normal”: nada de máscaras, nada de lojas fechadas, nada de número máximo de pessoas por metro quadrado.

Ao mesmo tempo, a Bielorrússia apresenta um dos mais baixos números de morte de toda a Europa, apenas um pouco mais alto que os da Finlândia, da Noruega e da Islândia. Mas a Bielorrússia também é uma ditadura, e assim como acontece com os números de outras ditaduras (Venezuela, China, Nicarágua), seus números são olhados com desconfiança por organismos internacionais.

Cidadãos da Bielorússia foram submetidos a poucas normas específicas quanto ao coronavírus. Número oficial de mortes é baixíssimo, mas – assim como no caso da Venezuela – questionado internacionalmente.

Excluindo-se a Bielorrússia, é difícil estabelecer um padrão para a região em termos de correlação entre o Índice de Rigor da Resposta Governamental e o número acumulado de mortes por milhão.

Assim como na Europa Ocidental, no Leste Europeu os países alteraram muito as suas normas ao longo da pandemia, com momentos de regras mais intensa e menos intensa se alternando. O país da região com maior número de mortes é a Eslovênia, seguida da Bósnia e Herzegovina. Os com menor número (excluída a Bielorrússia) são a Estônia e a Letônia.

Vejamos como foi o padrão de rigor nestes quatro países:

Embora tenham tido níveis de resposta governamental bastante semelhantes, Eslovênia, Estônia, Bósnia e Herzegovina e Letônia tiveram resultados – até o momento – imensamente díspares. Enquanto os dois países bálticos apresentam baixíssimo número de morte, os dois balcânicos apresentam os mais elevados números de óbito da região.

Alguém mais atento pode apontar a latitude como explicação. Vejamos: as regiões escandinava e báltica estão lá em cima no mapa, bem juntinhas ao Polo Norte. E calha de nas “duas Europas” os países com índices mais baixos estarem por lá. Poderia ser isso? Poderia.

Há problemas com esta hipótese? Há: dois. Se chamam Lituânia e Suécia. Dos três estados bálticos, a Lituânia foi o que implementou regras mais rígidas. Dos três estados bálticos, a Lituânia foi o que teve mais mortes, até o momento. Dos cinco estados escandinavos, a Suécia foi o que implementou regras mais rígidas. Dos cinco estados escandinavos, a Suécia foi o que teve mais mortes, até o momento.

Dos três países bálticos, aquele com regras mais rigorosas teve o pior resultado até agora. Dos cinco países escandinavos, aquele com as regras mais rigorosas foi o que teve também os piores resultados.

PENÍNSULA ARÁBICA

Não é comum incluir dados da península Arábica. Decidimos comparar também as informações disponíveis no site Our World in Data para esta região, mesmo que as distâncias linguística, política e cultural torne mais difícil checar as informações.

Um olhar sobre os dados do Índice de Rigor da Resposta Governamental nos aponta o Iêmen claramente como o país com o menos rígido conjunto de medidas governamentais. É também o país com menos mortes por milhão de habitantes em toda a região.

País que adotou regras menos rígidas segundo índice desenvolvido por Oxford é também o país que menos contabilizou mortes por conta do novo coronavírus chinês na Península Arábica.

Já os postos de países com regras mais rígidas da região recaem sobre Omã e Iraque. Ambos perseveraram por muitos meses na faixa acima de 80 pontos no índice estabelecido pela universidade britânica. O Iraque só começa a flexibilizar suas regras no final de agosto. Omã segue até mais longe, apenas descendo abaixo dos 80 pontos em meados de outubro. Apesar disso, ambos os países estão entre os piores da região quando se considera o número de mortes por milhão de habitantes.

UM OLHAR SOBRE O PROBLEMA DOS TOSTINES

Quem tem mais de 40 anos lembra de uma propaganda de biscoito: “é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é mais fresquinho?”

Correlação não implica causa, e você pode estar se debatendo sobre questão semelhante a dos biscoitos Tostines: será que os governantes dos países que estabeleceram regras mais rígidas não foram pressionados a adotar tais medidas por se verem diante de um número elevado de mortes?

Para pensar sobre isso, me parece necessário olhar o status das mortes nos países comparados no momento em que eles começam a definir estratégias. Olhemos para o Uruguai e para a Argentina, por exemplo. Há dois momentos em que a curva indica claramente tendências diferentes dos dois governos: o dia 19 de março, quanto a Argentina decide subitamente estabelecer todas as regras em seu máximo (talvez tenha sido o único país do planeta que atingiu 100 pontos no índice de Oxford), e o dia 14 de junho, quando o governo uruguaio começa a caminhar para um maior relaxamento das regras, que já eram bem menos rígidas que a dos vizinhos.

Entre 19 de março e 04 de maio, as curvas de morte por milhão dos dois países eram idênticas, mas as medidas de controle não poderiam ser mais diferentes. Não foi, portanto, um cenário mais trágico na Argentina que conduziu a um conjunto de medidas mais rigoroso: as medidas mais rigorosas precederam (o que não significa, necessariamente, que tenham sido a causa) o cenário mais trágico.

Comparação entre curvas de Rigor Governamental e de mortes por milhão não indicam que resposta argentina mais rígida tenha sido resultado de um cenário muito pior. De fato, entre março e abril a situação parecia pior no Uruguai, mesmo assim governo uruguaio relutou em implantar as medidas rígidas estabelecidas pela Argentina.

Podemos fazer o mesmo para os países escandinavos. Vamos ver se as mortes na Suécia explodem antes ou depois do estabelecimento de medidas mais rígidas?

Neste grupo, sim, podemos admitir a maior rigidez do governo sueco como uma resposta ao número de óbitos elevado. A Suécia começa com medidas mais brandas e encrudesce as regras após o número de mortes supera em muito os seus vizinhos mais próximos.

As regras suecas foram mais brandas que a dos seus vizinhos escandinavos até o final do mês de maio. O alto número de mortes, comparado aos índices escandinavos, foi seguido de um relativo recrudescimento das regras governamentais.

Já nas repúblicas bálticas observamos, até o momento, o perfeito oposto do que aconteceu na Escandinávia. Mesmo tendo os mais altos números de morte na região, desde o começo da pandemia, a Estônia sustentou a posição de estabelecer regras mais brandas.

O resultado, até o momento, é que mesmo tendo mantido as regras mais brandas da região, a Estônia se tornou o país com menor número de mortes acumuladas (por milhão de habitantes), tendo sido ultrapassada desde outubro pelas suas duas vizinhas.

Durante a maior parte da pandemia a Estônia teve o maior número de mortes por milhão, mesmo assim o governo sustentou a posição de manter regras mais brandas que seus vizinhos. Hoje a Estônia é o país com menos mortes acumuladas da região.

Quando olhamos para os dados de Omã e do Iraque, uma curiosa combinação é revelada: a média móvel dispara após a introdução das medidas mais rigorosas e decai após a retirada das mesmas. Veja: em 21 de março, quando as respostas do governo do Omã atingem mais que 80 pontos no índice de Oxford, a média móvel de mortes naquele país era de 0. O Iraque já havia adotado medidas rigorosas alguns dias antes: 17 de março, quando tinha ínfimo 0,1 mortes por milhão de mortes.

Quando resolvem abandonar as medidas mais rigorosas, que já duravam meses, o Iraque tinha média móvel de 1,94 (26 de agosto) e o Omã de 1,71 (12 de outubro). É só então, com regras mais flexíveis, que as médias móveis dos dois países começam a descer a colina.

Iraque e Omã tinham médias móveis de 0 mortes por milhão quando implementaram regras mais rígidas (acima de 80 pontos no índice estabelecido por Oxford). Viram o número de mortes crescer enquanto mantinham as regras mais rígidas. As mortes diárias diminuíram depois que os governantes de ambos os países relaxaram as medidas.

O QUE OS DADOS ACIMA APONTAM?

Se você leu até aqui e entendeu que o post afirma que as medidas governamentais agravam a disseminação da doença, entendeu errado. A sugestão é ler de novo.

Os resultados de cada país às respostas governamentais mais severas ou menos severas não indicam – é isto que se observa quando se compara os dados dos países citados acima e de outros – um agrupamento no sentido de “medidas severas levando a menos mortes” vs “medidas mais brandas levando a mais mortes”.

O que se observa em diversos pontos do planeta é que países que apostaram em medidas muito brandas, pouco custosas econômica e socialmente, tiveram resultados (quanto ao número de mortes per capita) semelhantes ou melhores que países vizinhos que adotaram medidas rígidas e extremamente custosas socialmente.

Isto não é observado apenas quando se compara Argentina e Uruguai, Estônia e Lituania, Iêmem e Omã. O mesmo fenômeno é observado quando se compara diversos países e regiões não listados acima. Não acredite em mim: acesse os links a seguir e confira você mesmo.

FONTE DOS DADOS

ÍNDICE DE RIGOR DA RESPOSTA GOVERNAMENTAL: https://ourworldindata.org/grapher/covid-stringency-index

MORTES POR MILHÃO DE HABITANTES ACUMULADAS: https://ourworldindata.org/coronavirus-data-explorer?tab=map&zoomToSelection=true&country=&region=World&deathsMetric=true&interval=total&hideControls=true&perCapita=true&smoothing=0&pickerMetric=location&pickerSort=asc








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