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Livro de Pluckrose e Lindsay é lançado em português: relembre experimento que desnudou a “ciência” identitária

Daniel Reynaldo
Rio de Janeiro, 09 de julho de 2021


Meados de 2017 e a página Aventuras na Justiça Social era um dos meus canais de informação prediletos. Foi através desta página que fiquei sabendo do estudo científico intitulado “O pênis conceitual como uma construção social”, que havia sido publicado na revista científica de Sociologia Cogent Social Sciences por um certo Jamie Lindsay e outro certo Peter Boyle. A pesquisa foi uma bomba nas páginas de “extrema-direita” do Facebook, do Twitter, do 4Chan, do Reddit e das demais redes sociais utilizadas por “fascistas” para disseminar “discursos de ódio”.

A coisa parecia engraçada demais para ser tão séria. Uma revista científica com revisão por pares indexada, havia publicado um estudo que começava afirmando que “Pênis anatômicos podem até existir, mas uma vez que mulheres transexuais não operadas também têm pênis anatômicos, a correlação entre pênis e masculinidade é uma construção incoerente.” Ao longo do texto a coisa piorava – ou melhorava, a depender do ponto de vista – e os dois estudiosos indicavam que a ideia de que o pênis é um órgão sexual masculino e representativo da masculinidade se refletia – em última instância – num incremento do aquecimento global.

O fato de que o pênis é associado á masculinidade se relaciona com o aumento do aquecimento global nesta deliciosa peça científica produzida por Lindsay e Boghossian.

Terminologia feminista se confundia com terminologia ecológica numa profusão sensacional de non sense: “Nosso planeta está se aproximando rapidamente do tão avisado limite de mudança climática de cerca de 2 ° C, e devido à dinâmica de poder patriarcal que mantém as atuais estruturas capitalistas, especialmente com no que diz respeito à indústria de combustíveis fósseis, a conexão entre o domínio da hipermasculino do científico, os discursos políticos e econômicos e os danos irreparáveis ​​ao nosso ecossistema fica clara. Abordagens hegemonicamente masculinas destrutivas e insustentáveis ​​para pressionar a política ambiental e ação são os resultados previsíveis de um estupro da natureza por uma mentalidade dominada por homens. Esta mentalidade é melhor capturada reconhecendo o papel do pênis conceitual sobre a psicologia masculina. Quando é aplicado ao nosso ambiente natural, especialmente ambientes virgens que podem ser facilmente desflorados por seus recursos materiais e abandonados dilapidados e diminuídos e quando nossas abordagens patriarcais para ganho econômico roubaram seu valor inerente, a extrapolação da cultura do estupro inerente ao pênis conceitual torna-se clara.”

UMA HIPÓTESE A SER TESTADA: OS AUTORES SE APRESENTAM E EXPLICAM O QUE ESTAVAM DE FATO INVESTIGANDO

O artigo era parte de uma experiência realmente científica, ele havia sido escrito pelos pesquisadores Peter Boghossian – um pedagogo e filósofo da Universidade de Portland – e James Lindsay – matemático e crítico cultural, como eles próprios explicam aqui.

Os estudiosos queriam testar uma simples hipótese, a de que bastaria defender – em um artigo escrito em formato acadêmico – que a masculinidade é intrinsecamente ruim e que o pênis está de alguma forma relacionada a esta maldade intrínseca dos machos da espécie que o artigo seria aceito em alguma revista científica séria, não importa o quanto absurda fosse a argumentação contida no texto.

Imbuídos de testar esta hipótese, fizeram o texto mais intencionalmente ridículo que conseguiram, inventaram dois pseudônimos, criaram também um nome para um instituto de pesquisa fictício ao qual estariam associados, e mandaram pra tal revista. Sucesso absoluto, os revisores adoraram, um deles celebrou a “Captura da questão da hipermasculinidade através de um processo multidimensional e não linear”.

Mas os dois, ou os três, não pararam por aí. Sim, três, porque além de Boghossian e Lindsay, estava envolvida a professora de literatura inglesa Helen Pluckrose.

A Social Congent é uma revista de não muito grande expressão, e Helen, Peter e James queriam verificar se mesmo as mais prestigiosas e bem classificadas revistas de ciências sociais são absolutamente acríticas à publicação de qualquer absurdo que coloque nos homens, ou nos brancos, ou nos heterossexuais, ou – e de preferência – nos três ao mesmo tempo a culpa de todas as mazelas existentes no mundo.

E lá foram eles: submeteram dezenas de textos para revistas feministas de alto prestígio. Uma das tentativas mais cômicas foi enviada para prestigiosíssima Gender, Place and Culture. Esta é uma revista top de linha. No SCImago Journal Rank (sistema que classifica revistas científicas de acordo com seu impacto nas áreas de estudo que abrange) ela aparece como primeiro quartil nos campos de Artes e Humanidades, de Estudos Culturais, de Demografia e de Estudos de Gênero. Comparando com as revistas especializadas em saúde, seria algo como a Nature, a Science ou a The Lancet.

Peter, Helen e James sabiam que não poderiam pegar leve, e a pesquisadora fictícia Helen Wilson enviou uma pesquisa com n amostral absolutamente espantoso: os revisores devem ter ficado animados com o tamanho da Ciência que tinham nas mãos.

O texto informa que ao longo de 1 ano, Helen ficou sentada em algumas pracinhas de Portland observando o comportamento sexual de cerca de 10 mil cãezinhos que eram levados para passear pelos seus donos. Ela queria saber mais sobre questões envolvendo cultura do estupro canina, performatividade homoerótica entre os cachorros e relação entre o comportamento dos donos e a sexualidade dos pets. O nome escolhido para o estudo: “Reações humanas à cultura do estupro e à perfomatividade viada em pracinhas para cachorro em Portland, Oregon”.

É claro que deveria ser rejeitado. Pra começo de conversa, 10 mil cachorros diferentes observados pelo período de um ano enquanto passava algum tempo sentada em pracinhas de uma cidade de médio porte? Tinha mais cheiro de fraude que a pesquisa #Lesbocídio, da UFRJ.

No estudo, Helen também indicava que no mesmo período foram observados 1 mil atos sexuais caninos e que percebeu que os donos atrapalhavam mais os acasalamentos quanto um cãozinho macho queria se acasalar com o outro do que quando um cãozinho queria se acasalar com uma cachorrinha. Nisso ela viu evidências de repressão homofóbica e de reforço à cultura do estupro canina. Além disso, das 39 vezes que ela observou um dono agredindo fisicamente seu cãozinho, em 14 delas o motivo seria a homossexualidade do doguinho, o motivo mais prevalente de todos.

Helen diz que teve que se ajoelhar para verificar se os cães eram machos ou fêmeas, e quanto a isso uma das revisoras questionou – à sério – se tais observações não poderiam ter causado estresse aos animais, por terem suas intimidades invadidas. É sério: uma pesquisadora feminista de verdade, revisora do periódico, ficou empolgada com a pesquisa, mas demonstrou preocupação com a questão ética de observar os cachorrinhos em seus momentos de intimidade, e sem que eles tivessem autorizado. Este e outros documentos (os paperes, os envios aceitos e não publicados e as conversas com os revisores das revistas científicas, vocês podem encontrar aqui). Helen respondeu que observou de longe, tomando cuidado para que os cãezinhos e as cadelas não se sentissem invadidos.

Mas e aí? O artigo saiu ou não saiu? Bem, lembra que a hipótese era de que qualquer artigo, por mais absurdo que fosse, seria publicado numa revista científica da área desde que culpasse os homens, ou os héteros, ou os brancos por qualquer mazela (real ou inventada) do mundo? Pois então: o resumo deste artigo dizia que a pesquisadora lançou mão de categorias da criminologia feminista negras e indica lições relevantes para romper com as masculinidades hegemônicas e promover acesso a espaços de emancipação. Claro que o paper foi publicado. E no vídeo abaixo (com legendas em português, ative se precisar) eles comemoram o email de aceitação (assistam, é uma delícia).

Estes não foram os únicos sucessos, o trio conseguiu êxito em diversas revistas científicas de ponta publicando desde artigos que defendiam que a melhor cura para a “masculinidade tóxica heterossexual” seria o uso terapêutico de pênis de borrachas até uma versão do Mein Kampf, de Adolf Hitler, em que trocavam menções aos judeus por menções aos homens e menções aos arianos por referências às mulheres.

“Até o momento existem muito poucas pesquisas sobre a penetração anal passiva em homens heterossexuais”, trecho de artigo que propõe que homens heterossexuais usem consolos de borracha no bumbum para perderem o medo de ser confundidos com gays.

Finalmente, em meados de 2018 o bem-sucedido experimento de Pluckrose, Boghossian e Lindsay foi encerrado. Estava satisfatoriamente demonstrado que as revistas científicas de “Estudos de Gênero” e áreas correlatas estão dispostas a aceitar e publicar toda e qualquer teoria desde que no centro desta esteja a figura do homem branco hétero como vilão. Desde então os três têm conduzido projetos diversos em busca da honestidade no debate público sobre questões sociais, da ampla liberdade de expressão e do incremento na qualidade das investigações acadêmicas em humanidades.

Alguns destes projetos são o portal Areo Magazine, do qual Helen é editora chefe; a plataforma Counterweight; e o livro (escrito em conjuto por Helen e James) Teorias Cínicas.

VERSÃO BRASILEIRA DE LIVRO ESCRITO A PARTIR DO EXPERIMENTO FOI LANÇADA ESTA SEMANA

A tradução em português do Teorias Cínicas (cujo subtítulo é: Como a academia e o ativismo tornam raça, gênero e identidade o centro de tudo – e como isto é ruim para todos) saiu esta semana, editora Avis Rara. Eis o resumo publicado pela editora:

Como a academia e o ativismo tornam raça, gênero e identidade o centro de tudo e por que isso prejudica todos. Você já ouviu falar que a ciência é sexista? Ou que certas pessoas não devem praticar ioga ou cozinhar comida chinesa? Ou ouviram que ser obeso é saudável, que não existe tal coisa como sexo biológico, ou que apenas brancos podem ser racistas? VOCÊ ESTÁ CONFUSO COM ESSAS IDEIAS E SE PERGUNTA COMO ELAS CONSEGUIRAM DESAFIAR A PRÓPRIA LÓGICA?

Neste livro, Helen Pluckrose e James Lindsay documentam a evolução dessas ideias, de suas origens grosseiras no pós-modernismo francês para seu refinamento dentro de campos acadêmicos militantes. Os autores alertam que a proliferação desenfreada dessas crenças anti-iluministas representa uma ameaça não apenas para a democracia liberal, mas também para a própria modernidade. Embora reconheçam a necessidade de desafiar o conceito de que não vivemos numa sociedade totalmente justa, Pluckrose e Lindsay analisam como tantos estudos ativistas, frequentemente radicais, prejudicam justamente os grupos que afirmam defender.


Eu ainda não li (exceto o primeiro capítulo, que está disponível neste link), mas acabei de encomendar a minha cópia.

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