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CHECAMOS: É falsa notícia de que Ministério da Saúde atesta ineficácia de “Kit Covid”


Daniel Reynaldo
16 de julho de 2021


Como publicar uma notícia falsa sem dar muito na cara? O portal da BandNews apresenta uma receita bastante útil e frequentemente utilizada pelos grandes meios de comunicação: anuncie algo totalmente falso na manchete, corrija parte da informação na última linha do texto.

Uma “notícia” publicada ontem no portal BandNews/UOL tem os seguintes título e subtítulo:


Qualquer pessoa que ler a manchete é levada a acreditar que o órgão não recomenda em absoluto o uso da medicação para Covid-19. E que nega – de forma definitiva – que o medicamento possa ter qualquer utilidade no tratamento da nova doença. É isso que se depreende dos dois trechos destacados, certo?

Entretanto, na última linha da mesma notícia o leitor encontrará a seguinte informação: “Na nota da Comissão, no entanto, a ineficiência desses medicamentos é citada somente na fase sintomática da doença.” Como diriam os Raimundos, “Opa, péra aí, caceta!”: a ivermectina e a hidroxicloroquina vêm sendo propostas para as fases iniciais da doença, como tratamento precoce. É a isso que se refere o termo “Kit Covid”.

´Portal Tecmundo foi outro que publicou notícia falsa, extrapolando contraindicação de diretrizes específicas sobre pacientes hospitalizados para protocolo específicamente prescrito a pacientes não hospitalizados.

Outros veículos de comunicação divulgaram a publicação das “Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19”, que foi lançada pela “Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde”. Alguns com mais outros com menos honestidade.

O Correio Braziliense teve uma conduta mais equilibrada na composição da manchete e da reportagem (link no fim do post). O Correio não indica, como (falsamente) indicou a Band que as substâncias foram RECONHECIDAS COMO INEFICAZES, ao invés disso informa que a substância ainda está EM ANÁLISE e que POR ENQUANTO ainda não é recomendada PARA PACIENTES HOSPITALIZADOS.

Pareceres anteriores da Conitec já tinham sido divulgados pela grande imprensa, como na matéria “Relatório da Saúde contraindica cloroquina e outros para tratar covid” publicada em maio pelo UOL e “Ministério da Saúde emite documento contraindicando cloroquina e ivermectina no tratamento da Covid-19”, ambas as manchetes são enganosas.

O QUE O TEXTO DA CONITEC REALMENTE DIZ

Você não precisa acreditar em mim, você pode baixar o relatório no próprio site da Conitec, mas aqui está um trecho importante do documento, no que diz respeito a esta questão.

“A ivermectina foi um dos medicamentos identificados e avaliados por outras diretrizes, tendo recomendação contra o seu uso nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Infectious Disease Society of America (IDSA) e da Australian Taskforce; o National Institutes of Health (NIH) não apresentou recomendação nem a favor nem contra, por não haver evidências suficientes. O grupo elaborador reconhece a existência de estudos clínicos sugerindo o uso de ivermectina, assim como de revisões sistemáticas positivas para esse tópico, sendo revisadas durante o processo de consulta pública. As revisões não abordavam exclusivamente pacientes hospitalizados; em geral, em sua maioria, avaliavam pacientes com doença leve e moderada, possuindo estudos com alto risco de viés. Além disso, as revisões sistemáticas possuíam limitações metodológicas na sua execução (alto risco de viés de acordo com o instrumento ROBIS), apresentando inclusive erros de extração de dados e classificação inadequada dos pacientes nos subgrupos. Os principais estudos em pacientes hospitalizados incluídos nessas revisões estão contemplados na síntese de evidência realizada pela IDSA, revisada em 28 de maio de 2021, sendo utilizada por base no presente documento. O grupo elaborador entende que não há evidências procedentes de ECRs de adequada qualidade metodológica suportando o uso da ivermectina no paciente hospitalizado. Assim, a recomendação do grupo elaborador, no momento, é condicional contra o uso da ivermectina, baseada em nível de evidência muito baixo, sugerindo a inclusão de pacientes em protocolos de pesquisa com adequada aprovação regulatória. Essa recomendação poderá ser modificada com o surgimento de estudos clínicos com adequado rigor metodológico.”

CERTEZA DE EVIDÊNCIA E FORÇA DE RECOMENDAÇÃO

Em audiência sobre as diretrizes, o epidemiologista Maicon Falavigna (um dos elaboradores do documento) discutiu os motivos pela recomendação ou não no momento a cada um dos medicamentos que foram analisados. Ele destaca que nenhuma das classificações é proibitória quanto ao uso, sendo responsabilidade dos gestores de saúde pública e dos médicos assistentes a decisão final, mas indica que para cada uma das orientações foi usado um protocolo de classificação quanto aos niveis de evidência e recomendação conhecido como GRADE.

Ele explica que a ivermectina foi não recomendada com nível muito baixo de certeza de evidência e com força de recomendação condicional, enquanto a cloroquina não foi recomendada com certeza de evidência moderada e força de recomendação alta. O epidemiologista ainda destaca – de novo e verbalmente – que os dados se referem apenas ao uso hospitalar e que não foram consideradas os estudos específicos sobre tratamento ambulatorial e precoce. A fala vai dos 28 aos 50 minutos no vídeo que pode ser assistido neste link:

RESUMO DA CHECAGEM

1. Ao contrário do que a Band News divulgou, o documento não admite a ineficácia, mas apenas não admite ainda a eficácia de ambas as substâncias. São afirmações distintas: “não saber se algo funciona” não pode ser traduzido como “saber que algo não funciona”.

2. Ao contrário do que a Band News anunciou, o documento reconhece a existência de evidências positivas acumuladas em favor da ivermectina no tratamento de Covid-19, embora faça ressalva sobre a qualidade epistemológica de alguns estudos. Quanto à cloroquina/hidroxicloroquina não há comentários neste sentido.

3. Ao contrário do que a Band News indicou na manchete (e deixou para corrigir na última frase da matéria), o documento se refere apenas a pacientes a pacientes internados: o protocolo nomeado de “Kit Covid” é indicado para pacientes não hospitalizados, que estão fora do escopo do relatório.

REFERÊNCIAS

LINK PARA MATÉRIA DO CORREIO BRAZILIENSE
https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/07/4935871-sem-cloroquina-diretriz-para-tratamento-da-covid-19-sera-reavaliada-pela-saude.html

LINK PARA A DIRETRIZ DA CONITEC QUE VEM SENDO DIVULGADA COMO DOCUMENTO EM QUE O MINISTÉRIO DA SAÚDE RECONHECE INEFICÁCIA DA IVERMECTINA, O QUE NÃO É VERDADE
http://conitec.gov.br/images/Relatorios/DiretrizesBrasileiras_TratamentoHospitalarPaciente_CapII.pdf

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