Uncategorized

Saiba se você é transfóbico (de acordo com a Ciência)

Daniel Reynaldo
Rio de Janeiro, 20 de julho de 2021


O que você precisa fazer para não ser transfóbico? Se você acredita que basta não cometer agressões físicas e verbais contra transexuais (baseadas apenas no fato de serem transexuais) e nem discriminá-los objetivamente no dia-a-dia (como não se negar a fazer dupla em um trabalho acadêmico só pelo fato do colega ser um travesti ou a oferecer um emprego apenas pelo fato de a candidata ser uma lésbica masculinizada), talvez você esteja enganado.

No que depender de alguns cientistas especializados, vai ser bem mais difícil que isso. Você terá que abdicar de suas crenças religiosas, do seu idioma, das suas preferências erótico-afetivas e dos tipos de presente que escolhe para seus filhos se realmente quiser se ver livre de qualquer possibilidade de ser classificado com algum nível de transfobia. Talvez seja melhor nem começar a tentar, já que é quase certo que – por mais que você se esforce em ser boa gente – vai continuar recebendo selinho de transfóbico no final da brincadeira.

Uma das ferramentas mais utilizadas por especialistas da área que Helen Pluckrose, James Lindsay e Peter Boghossian chamam de “estudos do ressentimento” (ou “ciência do mimimi) são as escalas psicométricas: escalas psicométricas são aquelas listinhas de perguntas em que você responde se concorda ou discorda de uma série de alegações e que no final te dão um resultado como “Parabéns! Você é 88% machista” ou “Excelente! Você é 57% fascista”.

Nem todas as escalas psicológicas se prestam a embasar discursos pseudocientíficos sobre questões identitárias. Elas são usadas também em testes de aptidão acadêmica e profissional, em investigações sobre a orientação política do entrevistado e em n outras situações. Especialistas em “estudos do ressentimento” parecem, contudo, ter especial apreço por este tipo de ferramenta. A elaboração de escalas psicométricas de fascismo, racismo, transfobia, homofobia (ou seja: aquelas que mensuram algum tipo de xingamento ideológico) permitem que o ativista xingue simulando refinamento cultural e embasamento científico.

A revista científica Sex Roles é uma das principais publicações acadêmicas da área de “Estudos de Gênero”, e aparece no primeiro quartil referente a esta área no SCImago Journal Rank: é uma espécie de The Lancet dos “estudos de ressentimento”. Foi uma das revistas usadas por Pluckrose, Lindsay e Boghossian no experimento em que os três testaram a hipótese de que revistas de Estudo de Gênero estão dispostas a publicar qualquer texto formatado de modo acadêmico, por mais ridícula que seja a escrita, desde que tese central apresente uma visão demonizadora contra homens brancos heterossexuais.

Esta revista já publicou pelo menos duas escalas psicométricas de transfobia. Uma foi elaborada pelos estudiosos Julie L. Nagoshi, Katherine A. Adams, Heather K. Terrell, Eric D. Hill, Stephanie Brzuzy e Craig T. Nagoshi enquanto outra foi construída por Darryl B. Hill e Brian L. B. Willoughby. Vejam quais os critérios escolhidos por cada grupo de pesquisadores para definir se alguém é ou não transfóbico (e o quanto):

O questionário preparado por Nagosh et al:

  1. Eu não gosto quando alguém está flertando comigo, e eu não sei dizer se eles são um homem ou uma mulher.
  2. Eu acho que há algo errado com uma pessoa que diz que não é homem nem homem nem mulher.
  3. Eu ficaria chateado se alguém que conheço há muito tempo me contar que costumava ser de outro gênero.
  4. Evito pessoas na rua cujo gênero não é claro para mim.
  5. Quando eu conheço alguém, é importante para mim ser capaz para identificá-los como homem ou mulher.
  6. Eu acredito que a dicotomia homem / mulher é natural.
  7. Sinto-me desconfortável com pessoas que não se conformam aos papéis tradicionais de gênero, por exemplo, mulheres agressivas ou homens emocionais.
  8. Eu acredito que uma pessoa nunca pode mudar seu gênero.
  9. A genitália de uma pessoa define o gênero dela, por exemplo, um pênis define uma pessoa como um homem e uma vagina define uma pessoa como mulher.

O questionário de Hill e Willoughby:

  1. Eu já bati em homens que agiam como maricas.
  2. Eu já me comportei violentamente com uma mulher porque ela era muito masculina.
  3. Se eu descobrisse que meu melhor amigo estava mudando o sexo deles, eu iria surtar.
  4. Deus fez dois sexos e apenas dois sexos.
  5. Se um amigo quisesse que seu pênis fosse removido em para me tornar uma mulher, eu o apoiaria abertamente.
  6. Eu provoquei um homem por causa de sua feminilidade aparência ou comportamento.
  7. Homens que fazem sexo entre si por prazer sexual me dão nojo.
  8. As crianças devem ser encorajadas a explorar suas masculinidade e feminilidade.
  9. Se eu visse um homem na rua que pensasse que fosse realmente uma mulher, eu perguntaria a ele se ele era um homem ou uma mulher.
  10. Homens que agem como mulheres deveriam ter vergonha de si mesmos.
  11. Homens que raspam as pernas são esquisitos.
  12. Eu não consigo entender porque uma mulher agiria de forma masculina.
  13. Eu já provoquei uma mulher por causa de masculinidade de sua aparência ou de seu comportamento.
  14. As crianças devem brincar com brinquedos apropriados para seu próprio sexo.
  15. Mulheres que se veem como homens são anormais.
  16. Eu evitaria falar com uma mulher se soubesse ela tinha um pênis e testículos criados cirurgicamente.
  17. Um homem que se veste de mulher é um pervertido.
  18. Se eu descobrisse que meu amante era do outro sexo, eu ficaria violento.
  19. Meninos femininos devem ser curados de seus problemas.
  20. Eu me comportei violentamente com um homem porque ele era muito feminino.
  21. Homens passivos são fracos.
  22. Se um homem que usa maquiagem e vestido, e que também fala em voz alta, aproxima-se do meu filho, eu usaria força física para detê-lo.
  23. Os indivíduos devem ter permissão para expressar seu gênero livremente.
  24. Operações de mudança de sexo são moralmente erradas.
  25. Homens femininos me fazem sentir desconfortável.
  26. Eu iria a um bar que era frequentado por mulheres que costumavam ser homens.
  27. As pessoas ou são homens ou são mulheres.
  28. Meus amigos e eu sempre fazemos piadas sobre homens que se vestem como mulheres.
  29. Mulheres masculinizadas me deixam desconfortável.
  30. É moralmente errado uma mulher apresentar ela mesma como um homem em público.
  31. É normal tirar sarro de pessoas que se travestem.
  32. Se eu encontrasse um homem que usa sapatos de salto alto, meias e maquiagem, eu consideraria espancá-lo.

De acordo com a Ciência, eu sou ou não transfóbico?

Estes dois “estudos” me remetem a uma recente postagem que fiz no perfil da Quem? #lesbocídio no Facebook. Diante de uma acusação de um seguidor, de que eu estava muito transfóbico nos últimos dias, destaquei que tenho o hábito de não me defender de acusações de racismo, sexismo, transfobia ou qualquer porcaria do tipo sem antes pedir ao meu detrator que explique a SUA definição de racismo, sexismo, transfobia ou de seja lá o que ele tenha me xingado.

Contemporaneamente há muitas pessoas que defendem que quem se opõe a cotas raciais é racista. Obviamente, que dada esta definição, eu sou racista. Se sua condição para que eu não seja racista é a de defender um sistema legal em que alguns cidadãos tenham privilégio ou prejuízo em uma disputa promovida pelo Estado a depender de seus traços raciais ou de como se identificam etnicamente, eu estou impedido de não ser racista (de acordo com a sua definição de racismo). Meus elevados princípios morais não me permitem, mil desculpas.

Há quem defina como prova de machismo a oposição a leis como a Lei Sexista Maria da Penha ou a Lei Sexista do Feminicídio. Para não ser machista, segundo estas pessoas, eu deveria acreditar ser justa uma lei que determina penas diferentes a agressores de crianças a depender de se a pessoa espancada e morta é menino ou menina.

Quanto às definições de transfobia fabricadas pelos dois estudos citados neste post, ainda que algumas questões de ambos os questionários supra realmente possam ser indicadoras honestas de preconceito/ódio específico contra determinado grupo demográfico (obviamente bater em alguém apenas por ser efeminado é indiscutivelmente um ato de ódio, e obviamente atravessar a rua para não cruzar com um travesti é no mínimo um ato de preconceito), boa parte das perguntas nas duas listas dizem respeito ao direito às próprias crenças religiosas, ao direito de falar seu próprio idioma ou ao direito de ter seus critérios de seleção erótico-amorosa.

Agredir transexual física ou verbalmente apenas por ser transexual? Não, de maneira nenhuma. Mudar de calçada por que vi uma lésbica masculinizada vindo na minha direção? Passei nessa também.

Algumas perguntas são dúbias. Se for para tomar um chope ou dividir um trabalho em grupo, certamente eu não tenho tanto interesse em saber seu sexo real da pessoa com quem eu estou interagindo quanto se for em relação a um match num app de paquera. De qualquer forma, neste tipo de teste as questões nuançadas podem ser resolvidas com um valor intermediário de resposta: se a escala for de 0 a 10, você responde 5

Agora, deixar de acreditar que pênis define o sexo masculino, que vagina define o sexo feminino, e que em português pessoas do sexo feminino são mulheres e pessoas do sexo masculino são homens? É preciso comprar brinquedos masculinos para as minhas sobrinhas, se eu não quiser ser transfóbico? Preciso fingir que a dicotomia macho/fêmea é invenção do patriarcado? Ihhh, perdi! Pode me chamar de transfóbico à vontade aí, seu cientista.








2 comentários

  1. Devido às militâncias e seu comportamento agressivo, quando não claramente criminoso, eu evito sim o convívio e o contato com seres lacrantes. Nem todo indivíduo contemplado pelas ditas “justiças sociais” é um militante, e alguns são opositores até, e com estes eu sou totalmente tranquilo. Mas no tocante a ideologias, eu sou “fóbico” sim. Não sou amigo de “ódio do bem”.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sua resposta me remete à defesa de Thomas Sowell em “Discriminação e Disparidades”. Sowell defende que existem dois tipos básicos de discriminação: a discriminação do Tipo I é de cunho objetivo, não baseada em preconceito ou viés prévio contra um grupo ou indivíduo: é a discriminação pela qual se seleciona o aluno melhor qualificado numa prova, para que este seja encaminhado a uma competição de matemática interescolar; ou a discriminação pela qual presidiários condenados por crimes mais graves vão cumprir penas maiores em presídios mais severos.

      Já a discriminação do tipo II é baseada apenas em ressentimento prévio, em ódio. É a discriminação presente no “Viado não entra aqui em casa não, que homossexualidade é perversão aos olhos de deus e eu não quero essa gente perto de mim”.

      Sowell então divide o tipo I em Tipo IA e Tipo IB: o tipo IA é o já apresentado. O Tipo IB é aquela lá do filho da Tais Araújo (lembra?): é fato que pessoas têm mais receio ao avistarem dois adolescentes negros do sexo masculino do que se avistarem duas mulheres idosas brancas vindo na sua direção numa calçada escura de uma rua perigosa na madrugada.

      Muitas pessoas de fato desviarão o caminho no primeiro caso, mas não é porque odeiem negros, ou homens, ou jovens e sim porque é de conhecimento indisputável que a maior prevalência de crimes urbanos (assaltos em especial) na maioria das grandes cidades brasileiras são cometidos por pessoas de cada um destes três grupos demográficos, com ampla prevalência para as que são dos três ao mesmo tempo. Homens cometem mais assaltos que mulheres, negros cometem mais assaltos do que brancos, jovens cometem mais assaltos do que crianças.

      Daí que mesmo que uma pessoa não seja nada racista (pode ser uma mulher branca casada com um homem negro, por exemplo; pode ser uma pessoa loira cujos amigos mais chegados são negros) ficará ansiosa na primeira situação.

      Vale a pena o livro, que é um dos mais baratinhos do Sowell: https://www.record.com.br/produto/discriminacao-e-disparidades/

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s