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Masculinidade heróica? Resultados do Google indicam que homens são mais propensos a arriscar as próprias vidas para salvar outras

Daniel Reynaldo
02 de agosto de 2021


RESUMO: Investiguei a hipótese de que haja variação na propensão de homens e de mulheres em arriscar a própria vida para salvar as vidas de outros seres humanos e de animais, e de que haja variação no número de salvamentos efetivamente realizados.Utilizei o motor de busca Google, aplicando comandos de busca como “Man dies trying to save son”, “Woman dies trying to save son”, “Man saves dog”, “Woman saves dog” e outros semelhantes. Fiz também algumas buscas em português. Os resultados indicaram significativa maior prevalência masculina tanto nas tentativas quanto nos sucessos, com algumas exceções. No texto discuto escolhas e limitações metodológicas, e indico possibilidades de investigação futura sob métodos epistemológicos mais rígidos


Quantas vezes você ouviu ou leu as expressões “Masculinidade tóxica” e “Masculinidade frágil”? Estes são dois tipos de xingamentos antimasculinos surgidos nas salas de cursos de “ciências” humanas e disseminados para fora das universidades, sobretudo através de jornalistas e ideólogos progressistas.

Geralmente os textos baseados nestes dois conceitos fazem referência a atos de covardia, de agressividade interpessoal e de desrespeito aos demais seres humanos que seriam – segundo a narrativa de ódio feminista – característicos da população masculina.

São sempre mencionados, neste contexto, a prevalência masculina entre os autores diretos de assassinatos e de outros crimes urbanos, a suposta prevalência masculina (não corroborada pela ampla maioria dos estudos acadêmicos rigorosamente controlados) nos casos de violência doméstica e comportamentos de menor importância, como sentar de pernas abertas ou xingar palavrões durante partidas de futebol.

Sérgio Vitor da Silva iniciou, há alguns anos, um projeto de pesquisa pessoal e voluntário baseado num conjunto de hipóteses que me pareceu bastante original: ele queria investigar, a partir de noticias publicadas em portais virtuais, se existe alguma prevalência estatística no que diz respeito à disponibilidade de um homem ou de uma mulher se arriscar, correndo risco de vida, para salvar outra pessoa (ou mesmo um animal).

Ele acreditava que sim, que existe, e que homens são mais propensos a atos de heroísmo, tentando salvar entes queridos e desconhecidos mesmo diante do risco da própria morte. Ele achava que havia também uma diferença de disposição em relação ao alvo: acreditava que para salvar os próprios filhos, homens e mulheres se arriscariam de modo semelhante, já para salvar desconhecidos – esta era a hipótese de Sérgio – homens seriam mais dispostos.

Sérgio pretendia fazer sua investigação a partir do uso de ferramentas de busca, usando comandos padronizados como “mulher morre ao tentar salvar filha” e “homem morre ao tentar salvar filha”. Coletou e organizou muita informação, mas abandonou o projeto por não ter recursos humanos e financeiros suficientes para a continuidade da investigação.Ele não estava preocupado com os efeitos da tentativa de salvamento (se a pessoa que estava sendo salva sobreviveu ou não), mas com a disponibilidade de alguém em arriscar a própria vida para tentar salvar outra.

Sérgio também pretendia excluir da sua análise os casos em que o agente da tentativa de salvamento fosse um profissional pago para isso (policial ou bombeiro, por exemplo). Ele estava interessado nas pessoas que voluntariamente se lançavam a rios e mares turbulentos para tentar salvar outra pessoa se afogando, e não em salva-vidas profissionais. Considerava os transeuntes que ao verem um assalto entram em luta corporal com o assaltante, e não incluía nos dados os policiais mortos após responderem a um chamado no 190.

Resolvi fazer algumas pesquisas primárias, baseadas nas hipóteses e métodos pensados por Sérgio, usando a ferramenta de pesquisas Google. Veja os resultados:

PESSOAS QUE MORRERAM EM TENTATIVAS DE SALVAMENTO


DANDO A VIDA POR ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO:
“man dies trying to save dog” buscado ao pé da letra e em qualquer data retornou 1.120 resultados, já “woman dies trying to save dog” retornou em 422 links. Já em relação às tentativas de salvamento de gatos, aparentemente mais mulheres perderam a vida: “woman dies trying to save cat” resultou em 102 links, “man dies trying to save cat” teve 68 resultados.

DANDO A VIDA POR CRIANÇAS E FILHOS:
“man dies trying to save kids” resultou em 342 entradas, contra apenas 6 da pesquisa “woman dies trying to save kids”. Mudando o termo de kids para son são 573 resultados para “woman dies trying to save son” contra 580 de “man dies trying to save son”. Uma igualdade curiosa, já que “woman dies trying to save daughter” resulta em 8 links contra 428 de “man dies trying to save daughter”.

DANDO A VIDA PELO PARCEIRO AMOROSO:
“woman dies trying to save husband” aparece 9 vezes contra” 222 vezes de “man dies trying to save dog wife”.

DANDO A VIDA POR PESSOAS DO SEXO OPOSTO:
“man dies trying to save woman” aparece em 6 490 links disponibilizados pelo Google contra 3 links (dando conta de uma mesma notícia) de “woman dies trying to save man”.

DANDO A VIDA EM QUAISQUER TENTATIVA DE SALVAMENTO (INCLUSIVE SALVAMENTO DE OBJETOS PESSOAIS):
“”woman dies trying to save” resultou em 23 700 links, dos quais o primeiro se tratava de uma mulher que reagiu a um assalto (tentando salvar o seu aparelho celular). Já “man dies trying to save” aparece em 84 200 resultados, sendo o primeiro deles o de um homem que morreu tentando salvar uma mulher que havia caído da Ponte de Londres.

Em português são 270 resultados de “homem morre tentando salvar” contra 7 resultados de “mulher morre tentando salvar”.

SALVAMENTOS EFETIVOS

Algo que não era parte do projeto original de Sérgio, mas que decidi investigar na pesquisa para este post, foram os resultados efetivos de salvamento, independente do desfecho para o herói. Para isso troquei os comandos “wo/man dies trying to save (…)” por “wo/man saves (…).

Neste caso encontrei 50 300 resultados para “man saves dog”, 14 200 para “man saves cat”, 1 520 para “man saves kids”, 4 440 para “man saves son”, 630 para “man saves daughter”, 22 700 para “man saves wife”, 73 800 para “man saves woman” (não usei apenas “man saves” porque isso significa “homem economiza” e o resultado ficaria provavelmente muito influenciado por esta sinonimia).

No video abaixo corre salta sobre os trilhos e avança contra um trem em movimento para salvar um menino que havia se desgarrado da mãe e caído na linha férrea. Todos sobreviveram.

Invertendo o sexo os resultados foram 2 500 links para “woman saves dog”, 1 980 para “woman saves cat”, 398 para “woman saves kids”, 1 210 para “woman saves son”, 795 para “woman saves daughter”, 16 900 para “woman saves husband”, 22 400 para “woman saves man”

LIMITAÇÕES

A breve pesquisa acima apresenta de limitações metodológicas. Por exemplo: há, entre os links oferecidos pelo Google, matérias que se referem a um mesmo caso. Uma das etapas do projeto desenhado por Sérgio seria exatamente o de filtrar resultados repetidos.

Outra limitação diz respeito ao próprio funcionamento dos algoritmos do Google: o Google coleta informações de cada computador e condiciona os resultados das pesquisas a estas informações. Os motores de busca consideram pesquisas prévias feitas no mesmo aparelho e podem resultar em respostas variadas por parte da mesma ferramenta: talvez se você refizer a mesma pesquisa, com os mesmos parâmetros, na sua casa, as respostas não sejam exatamente as mesmas. Conte nos comentários o que deu de diferente.

É possível que haja viés associado à atenção midiática que casos particulares recebem, bem como variações de destaque jornalístico de acordo com o sexo da vítima. Estes vieses e análises precisariam ser controlados numa pesquisa acadêmica destinada a publicação em revista científica séria, a metodologia breve e pouco controlada aplicada aqui me parece, contudo, suficiente para indicar uma alta probabilidade de que a hipótese anteriormente aventada por Sérgio seja confirmada, se cuidadosamente investigada.

Para efeito deste post foram feitas pesquisas sempre entre aspas, configuradas para qualquer data, configuradas para resultado “ao pé da letra”, utilizando a janela InPrivate do navegador “Microsoft Edge”.

Que tal você refazer a pesquisa do seu computador, em outros navegadores, usando outros motores de busca, e compartilhar alguns resultados nos comentários desta postagem? E – se você é pesquisador acadêmico em humanidades – que tal a ideia de entrar em contato com o Sérgio Vitor da Silva – e combinar de dar andamento a esta pesquisa iniciada por ele, com os devidos recursos e métodos de controle epistemológico?

Outra limitação é relativa à questões semânticas, por exemplo: ao procurar (em português) “mulher salva esposo” o Google só retorna dois resultados e ambos dizem respeito a “salvamento” espiritual (conversão religiosa ao protestantismo), mas basta alterar para “mulher salva marido” que os números se multiplicam para 1 690. Já quando se faz “homem salva esposa” são encontrados 184 casos e quando se usa “homem salva mulher” são 31 100 casos. Acontece que enquanto esposo pode ser entendido como sinônimo mutuamente exclusivo de marido, mulher não é sinônimo exclusivo de esposa.

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