ONG feminista divulga dado falso sobre mobilidade urbana em São Paulo

ONG feminista divulga dado falso sobre mobilidade urbana em São Paulo
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A ONG feminista Think Olga publicou em sua página do Facebook que 64% dos usuários de transporte coletivo de São Paulo são “mulheres pretas ou pardas com renda de até dois salários”.

Assim que bati os olhos na postagem tive certeza de que havia algum erro: ninguém que já tenha andado de ônibus ou trem alguma vez na vida seria capaz de acreditar honestamente na proporção divulgada pela ONG. A não ser que estes dados fossem de algum lugar como Ruanda ou Somália, este números deveriam ser resultado de algum engano ou fraude.


Publicação divulgada por ONG em suas redes sociais afirma que a cada 100 que viajam em transportes públicos da capital paulista 64 são do sexo feminino, ganham menos de dois salários mínimos e são pretas ou pardas. Pessoas brancas de ambos os sexos, pessoas que ganham mais que dois salários mínimos de ambos os sexos e homens em qualquer situação responderiam em conjunto pelos 36% dos usuários restantes.


Chequei o documento apresentado como fonte pelas feministas, e descobri que a equipe da ONG Think Olga interpretou mal tanto as perguntas quanto as respostas de uma pesquisa publicada pelo IBOPE Inteligência. O documento indicado pela ONG não diz que mulheres pretas ou pardas que ganham até dois salários representem 64% dos usuários de transporte coletivo em São Paulo. Tampouco seria correto afirmar, com base nos dados da pesquisa, que 64% dos usuários são mulheres.

Tudo indica que os feministas da ONG leram apenas a versão resumida do estudo, mais especificamente a página 17, e — sem checar a informação nas tabelas disponibilizadas na versão completa — interpretaram erroneamente um box explicativo apresentado naquela página.


Feministas da ONG Think Olga usaram dados de pesquisa feita pelo IBOPE Inteligência, mas apresentaram conclusão que não é suportada pelos números coletados pelo instituto de pesquisa.


O que o documento realmente diz é que cerca de 64% dos entrevistados informaram que têm como principal meio de transporte um dos quatro modais de transporte coletivo de São Paulo (metrô ou ônibus ou ônibus fretado ou trem).

E que, dentro destes 64%, mulheres são a maioria (no que diz respeito ao sexo), “pretos e pardos” são a maioria (no que diz respeito à etnia) e pessoas com renda de até dois salários são maioria (no que diz respeito ao salário).

Veja abaixo alguns dados da pesquisa

O IBOPE entrevistou 800 pessoas na capital paulista, 363 homens e 437 mulheres. O documento publicado pelo IBOPE, a partir das entrevistas, indica que forma de locomoção tem pouca diferença entre homens e mulheres.

Ao serem perguntados sobre quais modais eram os mais utilizados por eles ao se locomoverem pela cidade, 48% dos homens responderam ônibus, 4% responderam trem, 10% responderam metrô e 1% respondeu ônibus fretado ou intermunicipal. A soma dá 63%. Quanto às mulheres, os percentuais foram 46%, 3%, 14% e 1%. A soma é 64%.




Tabela divulgada pelo IBOPE Inteligência indica que 63% dos homens e 64% das mulheres entrevistadas informaram que usam transporte coletivo como principal meio de locomoção. Feministas concluíram que 64% dos usuários de transporte coletivo fossem mulheres pretas e pardas com renda de até dois salários.



E quanto à etnia? Bem, o documento informa que 38% dos brancos indicaram que seu transporte mais utilizado é o ônibus municipal, 3% responderam trem, 15% metrô e 1% ônibus fretado ou intermunicipal. Dá 57%. Já quanto a pretos/pardos as respostas foram 56%, 4%, 10% e 1%: 71%. Ou seja: 71% dos “pretos e pardos” e 57% dos brancos se locomovem preferencialmente por um dos quatro modais de transporte público.

Algumas ESTIMATIVAS que podem ser feitas a partir dos dados disponíveis

Os dados acima são resultados de uma pesquisa baseada em 800 entrevistas com cidadãos paulistanos. Não é possível fazer afirmativas categóricas sobre toda a população a partir deles, mas é possível traçar algumas estimativas cruzando os dados da pesquisa com outras informações.

Considerando que 63% dos entrevistados homens e 64% das mulheres apontaram se locomover mais por um modal coletivo de transporte público que qualquer outro meio.
E considerando que, segundo o último censo (4) do IBGE, São Paulo tem 47,35% de homens e 52,75% (por falta de dados da cidade, usei dados do estado), podemos ESTIMAR que ~0,30% da população paulistana seja composta de homens que se locomovem mais por transporte coletivo que por qualquer outro meio e ~0,34% da população paulistana seja composta de mulheres que se locomovem mais por transporte coletivo que por qualquer outro meio.
A razão entre 0,30% e 0,64% é o que vai indicar o percentual ESTIMADO e aproximado por sexo dentre os paulistanos que se locomovem mais por transporte coletivo que por qualquer outro meio: ~46,87% dos paulistanos que se locomovem preferencialmente por transporte coletivo seriam homens e ~53,13% seriam mulheres.

O percentual de “mulheres pretas ou pardas que recebem até dois salários mínimos” é impossível de ser calculado ou estimado com base nos dados da pesquisa, mas representaria apenas uma fração destes ~53,13%, não podendo — desta forma — de maneira alguma corresponder aos 64% divulgados pela ONG feminista.

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