Estatísticas feministas Internacional

O mito da “dupla jornada feminina”: um olhar sobre os dados noruegueses

Você vai a uma pizzaria com seu amigo e pede uma meia calabresa, meia mozarela de 35 cm. Já seu amigo pede uma mozarela do mesmo tamanho.

Depois de cada um limpar a sua bandeja, você chama o gerente e reclama de que foi discriminado, argumenta aos berros que o seu amigo comeu muito mais pizza de mozarela que você. Abaixa as calças em protesto contra a desigualdade no acesso ao queijo, estarrecendo os demais clientes.

Ignora completamente os argumentos do gerente e do amigo de que a “desigualdade” só ocorreu porque você teve uma parte de pizza calabresa, recheio este que o outro não teve. Este é basicamente o resumo das queixas feministas sobre “desigualdade no trabalho”, particularmente o mito da “desigualdade na divisão dos afazeres domésticos”.

Dados de diversos países, inclusive o Brasil, indicam que homens exercem menos horas semanais de afazeres domésticos que mulheres, mas ao contrário da narrativa feminista, esta diferença não se dá porque homens são uns porcos preguiçosos que largam a meia suja no meio da sala e vão pro quarto ver futebol deixando para a esposa o preparo da janta. Esta não é a história, é parte da história. A outra parte da história é que – estatisticamente, e ainda – os homens também passam significativamente maior tempo no trabalho não doméstico (frequentemente braçal) necessário para que se compre os ingredientes da janta.

Estamos falando de um perfil estatístico. É óbvio que há homens que deixam todo o trabalho doméstico para as esposas que trabalham tantas horas quanto eles. Há também mulheres que são apenas “donas de casa” e mesmo assim acreditam que o marido tem que ter funções idênticas de cuidado doméstico. Pessoas que agem assim estão erradas, independente do sexo, mas estatisticamente o que acontece com maior prevalência é homens trabalhando menos horas nas atividades domésticas porque trabalham horas mais nas atividades não domésticas.

Uma evidência desta correlação vem dos dados noruegueses de divisão do tempo diário por homens e mulheres nas últimas décadas. Os dados foram obtidos a partir do portal Our World in Data, destinado ao compartilhamento de informações estatísticas sobre temas diversos. Os dados femininos podem ser conferidos neste link e os masculinos neste.

Os dados estatísticos noruegueses demonstram que homens e mulheres variam pouco no tempo gasto em educação, cuidados pessoais ou lazer. Os dados também indicam que homens contribuem e sempre contribuíram com uma significativa parcela de seus dias dedicadas aos afazeres domésticos (ou seja: homens também exercem “dupla-jornada de trabalho”) e a diferença neste campo é equilibrada por uma diferença inversa no tempo dedicado ao trabalho economicamente produtivo.

Os dados também informam que os tempos percentuais dedicados a lazer, cuidados pessoais e educação variaram pouco em relação há 5 décadas atrás. Entretanto, mulheres passaram a fazer cada vez menos afazeres domésticos à medida que trabalham mais em atividades economicamente produtivas, e homens ao contrário. Ou seja: à medida que mulheres passaram a gastar mais tempo tentando conseguir dinheiro para comprar o feijão, homens passaram a gastar mais tempo cozinhando o feijão e lavando os pratos.

VEJA COMO VARIARAM OS PERCENTUAIS EM CADA GRUPO DE AFAZERES

EDUCAÇÃO

O tempo dedicado por noruegueses e norueguesas a estudar varia muito pouco com relação ao sexo. Estatísticas oficiais do país indicam que em 2010 a média de minutos gastos por uma mulher em educação era de 28 minutos, 1 a mais que a média masculina. Em 1970 homens gastavam 23 minutos neste tipo de atividade contra 17 minutos femininos. Desde então mulheres ficaram sempre na frente, mas sem grande diferença.

LAZER

Outro campo em que há pouca diferença: na última coleta de dados homens informaram 378 minutos em lazer contra 371 femininos. Quase empate, e assim foi também nos anos 70, 80, 90 e 00. Em 70 homens haviam informado 321 minutos contra 299 informados por mulheres, em atividades diárias de lazer.

CUIDADOS PESSOAIS

Também neste campo não houve diferenças significativas ao longo dos anos informados: foram 624 minutos médios femininos em gastos com necessidades pessoais contra 599 minutos masculinos. A proporção não variou ao longo dos últimos anos: em 70 eram 619 minutos masculinos contra 637 femininos.

SERVIÇOS DOMÉSTICOS

Se não variou em educação, lazer e cuidados pessoais, variou onde?

Em 1970 as norueguesas gastavam 355 minutos diários cuidando de casa, em 1980 foram 286 minutos, na década seguinte reduziram para 262 minutos, ficando com 236 minutos em 2000 e 230 em 2010.

Já os homens pularam, no mesmo período, de 133 para 180 minutos cuidando dos afazeres da casa.

Ainda parece injusto: as mulheres trabalhavam – em 2010 – 50 minutos diários a mais que os homens em atividades como faxina e cozinha. Calma, não se esqueça da pizza calabresa.

TRABALHO

Em 1970 os homens noruegueses gastavam 329 minutos diários em atividades economicamente produtivas (“trabalhar fora”) que foram reduzidas para 280 na década seguinte, depois para 270, depois voltaram a aumentar para 274 e – em 2010 – reduziram de novo para 250 minutos.

Já as mulheres trabalhavam 116 minutos em 1970 e passaram a trabalhar 181 minutos em 2010.

A diferença é de 70 minutos diários entre homens e mulheres. Ou seja: em 2010, mulheres norueguesas gastaram em média 411 minutos diários trabalhando, quando somadas as cargas de trabalho doméstico e não doméstico. Para os homens a soma dos mesmos tipos de trabalho foi de 430 minutos.

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