Checagem Colaborador convidado

Em escola de narrativa, jornalista é professor


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Com a ascensão cada vez mais acelerada do mundo virtual como veículo de informação, a sociedade tem sofrido de forma proporcional com a criação de rumores e notícias falsas que circulam livremente. A informação é essencial para a tomada de certas decisões: através dela, empresários decidem ou não investir, políticos definem ou não quais pautas seguir, e eleitores decidem ou não votar em tal ou qual candidato. A informação tem o potencial de alterar as marés do imaginário popular, e nós podemos muito bem ver os efeitos de algumas ondas.

Nos últimos anos houve debates calorosos sobre Fake News no âmbito da democracia e sua pretensa influência na escolha dos líderes das nações: foi assim nos Estados Unidos, e também foi assim no Brasil, com a eleição de Jair Bolsonaro – evento alegadamente bem sucedido por conta da disseminação de boatos e desdém pela imprensa. Este artigo não visa, porém, analisar o mérito desta afirmação, mas responder algo mais simples. Recentemente, notícias sobre o aumento da violência contra jornalistas têm circulado bastante na mídia, e algumas delas atribuem o fenômeno à ação sistemática do Presidente Jair Messias Bolsonaro: estas notícias têm fundamento? O aumento está relacionado à ação do governo? Existe aumento de verdade? E enfim, são fatos ou narrativas?

Importantes portais de notícias [1][2][3] divulgam os dados sobre violência dos relatórios da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). Em janeiro deste ano a FENAJ publicou seu relatório de violência contra jornalistas e liberdade imprensa no Brasil referente a 2020 [4], e obteve resultados alarmantes: o número de casos mais que dobrou em relação ao ano anterior, e foi recorde desde 1998 – ano em que começaram a registrar. A princípio o dado pode parecer impactante, mas o que revela uma análise mais criteriosa comparando os números recentes com os mais antigos? E o que uma análise metodológica sobre a coleta e o tratamento dos dados pela FENAJ pode nos mostrar?

FENAJ INVENTOU NOVO TIPO DE AGRESSÃO EM 2019: “DESCREDIBILIZAÇÃO DA IMPRENSA”

A FENAJ tradicionalmente utiliza classes de violência que podem variar de acordo com as ocorrências registradas anualmente. Algumas classes, como Assassinatos, Agressões, Ofensas, Ameaças/Intimidações, Censuras e outras, foram quase perenes desde 2005, ocasionalmente sendo fundidas ou omitidas pela falta de registros no respectivo ano. Classes extras também foram, esporadicamente, introduzidas algumas vezes, tais como Assédios Sexuais, Injúrias Raciais e Sequestros. Estas classes, porém, não somavam grandes números ao total de casos – muitas vezes apenas um ou dois casos no ano – mas sua adição era justificada, pois se tratavam efetivamente de crimes tipificados cometidos contra jornalistas e ainda relacionados ao exercício da profissão.

No ano de 2019, entretanto, a FENAJ pela primeira vez na história introduziu em seu relatório a classe de violência denominada “Descredibilização da Imprensa”, e a partir deste marco, os casos totais aumentaram exorbitantemente. Todos os casos de Descredibilização da Imprensa foram perpetrados por uma única pessoa: o Presidente da República. Em 2019, do total de 208 casos, 114 foram cometidos por Jair Bolsonaro: 54,80% de todos os registros do ano. Em 2020, dos totais 428 casos registrados, 152 (35,51%) foram atribuídos a Bolsonaro pelo mesmo motivo.

A adição da Descredibilização da Imprensa como forma de violência é justificada? Consideremos que sim para o bem do argumento, pois se não for, não haveria motivo para estar no relatório em primeiro lugar. Se sim, por que só foi considerada pela FENAJ a partir de 2019? Isto só pode ser explicado por uma das duas seguintes possibilidades: ou não houve quaisquer casos de descredibilização da imprensa desde 1998 – o que é improvável – ou esse tipo de registro só passou a ser do interesse da FENAJ em 2019 – o que demonstra vício. Se houve casos de Descredibilização da Imprensa nos anos anteriores, por que a FENAJ decidiu ignorá-los? Mesmo que estivessem em pequeno número, a federação já havia criado novas categorias de violência ainda mais ocasionais para encaixar uma ou duas ocorrências anuais de sequestro, assédio, racismo, etc.

O vício na análise da FENAJ foi ainda maior do que parece: eles não só adicionaram uma classe de violência altamente impactante de forma completamente arbitrária, como compararam os números de 2019 e 2020 com os anteriores como se estivessem em condições iguais. De 2018 para 2019 houve um suposto aumento de 54% nos casos totais de violência contra jornalistas – aumento este noticiado em diversos canais da mídia – mas é um aumento completamente artificial: retirando a Descredibilização da Imprensa, na verdade os casos totais diminuíram em 30,3% – de 135 em 2018 para 94 em 2019.

Há de se argumentar que, de certa forma, a suposta ação do Presidente da República cria um ambiente hostil ao exercício do jornalismo e incentiva a violência contra os profissionais. Se este fosse o caso, então seria esperado que observássemos um aumento no número de casos de agressões, ofensas, ameaças, intimidações, assassinatos, etc. Não é isto que se observa ao longo dos anos (Figura 1). Desde 2005 os casos de violências, com exceção das Agressões e Ofensas, permaneceram praticamente constantes, com pouca variação em seus números. Foi no ano de 2013 que as Agressões e Ofensas atingiram seu pico, e desde então os números nunca mais voltaram ao que eram antes, variando ocasionalmente de ano a ano – e até caindo consideravelmente nos anos subsequentes. Somente no ano de 2020 é que se nota um aumento substancial no número de ofensas dirigidas a jornalistas, mas não agressões físicas. Ameaças e Intimidações se mantiveram praticamente constantes desde 2015, e as Censuras, Cerceamentos Judiciais e Impedimentos da atividade profissional tiveram uma alta em 2020 também, mas especialmente o componente Censura, que engloba a ação de particulares das mais diversas origens e afiliações: empresas privadas, setor público, prefeituras, e políticos. Não houve aumento substancial no componente de Cerceamento Judicial ou de Impedimento Profissional em 2020, se comparado aos anos anteriores.

Figura 1. Evolução dos casos de violência contra jornalistas segundo a FENAJ, entre 2005 e 2020, com valores extraídos dos relatórios anuais de violência.

AUMENTO DE CASOS VS AUMENTO DE NOTIFICAÇÕES: UMA QUESTÃO EPISTEMOLÓGICA PRIMÁRIA

Os dados da FENAJ são obtidos através de denúncias à própria federação ou aos sindicatos, bem como através da compilação de notícias divulgadas nos diversos veículos de comunicação. A federação sempre deixou claro que os números dos seus relatórios dificilmente refletem a realidade da violência como um todo, sugerindo a hipótese da subnotificação por parte dos jornalistas e, por corolário, pela própria ação da federação ao negligenciar conscientemente o registro da Descredibilização da Imprensa nos anos anteriores. Além disso, se existe uma subnotificação de casos, não há como dizer se o aumento em certas categorias ao longo do tempo é decorrente de um aumento factual de casos ou simplesmente de um aumento da proporção de denunciantes.

Assim sendo, não há como atribuir, honestamente, a responsabilidade pelo aumento do número de casos de violência ao atual governo, como muitos têm feito. Para fins de maior consistência metodológica em relação aos anos anteriores, a Figura 2 mostra como seria a curva de violência sem a categoria de Descredibilização da Imprensa introduzida arbitrariamente a partir 2019. Os dados são inconclusivos e as causas para a variação neles são aleatórias ou desconhecidas. É incorreto dizer que existe relação direta entre a variação dos casos e alguma causa externa específica – diga-se o governo – pois não se pode concluir isto das informações disponíveis.

Figura 2. Evolução dos casos de violência contra jornalistas segundo a FENAJ, entre 2005 e 2020, com valores extraídos dos relatórios anuais de violência, excluindo-se a Descredibilização da Imprensa.


ABERT PUBLICOU RELATÓRIO COM RESULTADOS DISTINTOS: ASPECTOS METODOLÓGICOS EXPLICAM A DIFERENÇA NOS NÚMEROS

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) faz um trabalho semelhante ao da FENAJ desde 2013. Seus dados também são utilizados por diversos veículos midiáticos. No entanto, a ABERT possui uma metodologia mais bem estruturada e consistente com suas medições anteriores. Por causa disso, os dados da ABERT diferem dos dados da FENAJ, e estão modelados na Figura 3. Nos dados da ABERT não se observa uma tendência histórica de aumento nos casos totais de violência contra jornalistas. Desde 2013 os casos variam para mais ou para menos sem uma tendência definida. De 2019 a 2020, assim como mostra a FENAJ, houve um aumento nos casos de Agressões e Ofensas, especialmente ofensas, mas não agressões. Em contrapartida, já houve anos mais violentos, como 2016: recorde no número total de casos.

Alguns canais [5][6] estão associando o aumento da violência entre 2019 e 2020 à ação do presidente Jair Bolsonaro e apoiadores. Houve um aumento de 168% segundo dados da ABERT. Porém, as alegações feitas nestes canais não se sustentam quando comparadas aos anos anteriores e até com a diminuição expressiva da violência no ano de 2019. No primeiro ano do mandato de Jair Bolsonaro, a violência contra jornalistas caiu pela metade: houve uma redução de 52% no número de casos. Seria Bolsonaro o herói dos jornalistas? Não. Tampouco o vilão. As variações anuais simplesmente são aleatórias, e a mídia apenas faz recortes que são convenientes para fundamentar suas narrativas.


Figura 3. Evolução dos casos de violência contra jornalistas segundo a ABERT, entre 2013 e 2020, com valores extraídos dos relatórios anuais de violência.


Como podemos ver na curva de violência da ABERT, não existe qualquer tendência histórica consistente de crescimento da violência contra jornalistas, e o que é apontado pela mídia é uma fração da realidade, escolhida porque convenientemente fomenta preconceitos já existentes no meio jornalístico. Os números, ao que se pode ver, variam ao acaso. Se não variassem ao acaso, Dilma Rousseff seria a inimiga número um da imprensa – já que sob sua égide houve um crescimento de 326% na violência contra jornalistas entre 2013 e 2014, quase duas vezes maior que o famigerado aumento de 168% no governo Bolsonaro entre 2019 e 2020.

Enfim, conclui-se com os dados disponíveis, e sua respectiva estruturação, que existem vícios metodológicos nos relatórios da FENAJ, e enviesamento na divulgação dos resultados. Este enviesamento consiste em fazer recortes temporalmente limitados e, deles, retirar conclusões que não fazem sentido se analisadas sob uma perspectiva histórica responsável e honesta. Os jornalistas que tanto bradam contra a divulgação de Fake News, por vezes, são os protagonistas da sua divulgação para o público que deveriam proteger e informar. Uma imprensa responsável deve mostrar informações completas e livres de enviesamento político-ideológico, do contrário se torna aquilo cujo seu princípio é destruir. Duvidar da imprensa não só é um exercício de liberdade e cidadania, como é uma necessidade – não uma violência como alguns dizem – haja vista que sua imparcialidade está cada vez mais suspeita, como aqui foi mostrado. Em todos os casos, saibam vocês, leitores, que está tudo bem não confiar na imprensa, mas tenham a mesma desconfiança com todas as coisas. Ceticismo e bom senso andam em falta ultimamente.

REFERÊNCIAS

  1. “Ano de 2020 tem recorde de ataques à liberdade de imprensa desde início da série na década de 1990, diz Fenaj”, acesso em 11 de agosto de 2021, disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/01/26/ano-de-2020-temrecorde-de-ataques-a-liberdade-de-imprensa-desde-inicio-da-serie-na-decadade-1990-diz-fenaj.ghtml
  2. “Violência contra jornalistas no Brasil cresce mais de 100% em 2020”, acesso em 11 de agosto de 2021, disponível em: https://cultura.uol.com.br/noticias/15971_violencia-contra-jornalistas-crescemais-de-100-em-2020.html
  3. “2020 vira ano mais violento a jornalistas com Bolsonaro liderando agressões”, acesso em 11 de agosto de 2021, disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/01/26/com-bolsonarocomo-principal-agressor-2020-foi-mais-violento-a-jornalistas.htm
  4. “Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil, 2020”, acesso em 11 de agosto de 2021, disponível em: https://fenaj.org.br/wpcontent/uploads/2021/01/relatorio_fenaj_2020.pdf
  5. “Violência contra jornalistas cresce 168% em 2020, aponta relatório da Abert”, acesso em 13 de agosto de 2021, disponível em:
    https://oglobo.globo.com/politica/violencia-contra-jornalistas-cresce-168-em2020-aponta-relatorio-da-abert-24951245
  6. “Puxadas por Bolsonaro e apoiadores, agressões a jornalistas crescem 168% em 2020, aponta relatório”, acesso em 15 de agosto de 2021, disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/03/puxadas-por-bolsonaro-eapoiadores-agressoes-a-jornalistas-crescem-168-em-2020-apontarelatorio.shtml

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