Imprensa Violência

A narrativa continua: publicado mais um “relatório” sobre “ataques” à imprensa

Apenas 3 dias depois de João F. Amorim destrinchar a narrativa da explosão de violência contra jornalistas baseada em dois relatórios publicados pela Federação Nacional dos Jornalistas e pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, as ONGs Repórteres Sem Fronteiras e Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio lançaram um novo relatório sobre o tema.




No documento intitulado “ATAQUES AO JORNALISMO SE ALASTRAM NAS REDES“, as ONGs dizem que contabilizaram cerca de “meio milhão de ataques à imprensa”. Novamente o presidente Jair Bolsonaro foi eleito como o maior algoz e as jornalistas do sexo feminino como as maiorias vítimas dos “ataques”, de acordo com a metodologia aplicada.

A leitura do documento, entretanto, deixa claro que a expressão “ataques ao jornalismo” é uma hipérbole para “críticas à imprensa ou a membros dela acompanhadas por hashtags padronizadas típicas do Twitter”. O que as duas ONGs classificaram como episódios de “ataque à imprensa” foram quaisquer tuítes que contivessem uma das cinco hashtags a seguir: #imprensalixo, #extreamaimprensa, #globolixo, #cnnlixo e #estadaofake.

Os responsáveis parecem acreditar que membros da imprensa merecem uma redoma de proteção especial, dentro da qual possam publicar qualquer tipo de opinião ou notícia (falsa ou verdadeira, ácida ou moderada) e se manterem completamente isentos de críticas.

Hoje mesmo publicamos sobre um tuite de autoria de uma jornalista, editora do Jornal da USP, que acusa a todos os que não concordam com o sistema de cotas de serem racistas. Poderíamos classificar o tuíte de Luiza Caires como um exemplo de “ataque cometido pela imprensa”? Ou jornalistas têm o direito especial de emitir toda e qualquer opinião ou informação ao mesmo tempo que mantém para si o direito de só receberem elogios, rosas e caixas de bombom?

O uso de hashtags ácidas para criticar personalidades públicas ou instituições é usual no Twitter e em demais redes sociais, e aparece tanto em críticas contra a imprensa como em críticas contra políticos, artistas, jogadores de futebol, clubes e instituições diversas.

Há algum tempo comentei sobre a minha surpresa com o fato de que o Facebook recomenda o acompanhamento de hashtags como #ForaBozo e #ForaBiroliro (a surpresa veio do fato de que eu nunca tinha visto antes nenhuma mensagem automática recomendando seguir uma hashtag naquela plataforma).

São milhões de publicações acompanhadas de hashtags negativas contra Bolsonaro e outros políticos, muitas tuitadas por membros da imprensa mais politicamente engajados, como o apresentador da HBO Gregorio Duvivier ou o portal noticioso Mídia Ninja nos tuites abaixo. Novamente, seriam exemplos de “ataques cometidos pela imprensa”?




Não é intenção defender o presidente neste texto, presidente este ao qual este blog aqui também já fez críticas abertas algumas vezes, sobretudo pela sua postura em relação a pautas sexistas.

Entretanto, é óbvio que a coleta e quantificação de tuítes contendo críticas à imprensa como meio de criar uma narrativa sobre “violência generalizada contra a classe” se revela uma histeria hiperbólica e cínica quando se considera a recorrência do uso do mesmo tipo de recurso contra membros dos outros poderes (lembrando que a imprensa gosta de se referir a si mesma como o quarto poder), inclusive por parte da mesma imprensa.

Opiniões ácidas, sarcasmo, crítica organizada sempre fizeram parte do debate público. Os membros da imprensa precisam se tornar adultos, e aprenderem a lidar com isso. Não adianta correr pra mamãe chorando que te xingaram no Twitter só porque você, jornalista intocável, bebezão mimado, postou uma notícia falsa, mandou um #ForaBozoGenocida ou chamou meio mundo de racista em uma publicação recente. Tadindocê.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s