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ONG divulga lista de poderosos que ameaçam liberdade de imprensa: Bolsonaro está, Moraes não


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A ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), mesma ONG por trás do relatório que indicava que jornalistas brasileiros sofreram meio milhão de “ataques” no Twitter (por “ataques” a ONG entendeu qualquer tuíte que tivesse hashtags como #GloboLixo e #Estadaofake) acaba de publicar sua lista de 37 governantes que ameaçam a liberdade de expressão.

A lista inclui nomes como Sheikh Hasina, primeira ministra de Bangladesh; Nicolás Maduro, presidente da Venezuela; Mohamen ben Salmane, príncipe da Arábia Saudita; Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã do Irã; e Jair Bolsonaro, presidente do Brasil.

Sobre Kin Jong Un, a ONG informa que “O simples fato de consultar uma mídia sediada no exterior pode render a eles uma permanência vitalícia em um campo de concentração, e importar conteúdo em grandes quantidades é passível de pena de morte. “.

Sobre Erdogan, a RSF diz que “Em 2020, cerca de 50 jornalistas foram presos, sobretudo por terem coberto a questão dos refugiados sírios na fronteira com a Grécia ou por escreverem sobre a pandemia de Covid-19. A censura na Internet de qualquer assunto de interesse público que envolva personalidades próximas ao governo também é comum: em 2020, mais de 1.300 links levando a artigos online (sobre corrupção, clientelismo, etc.) foram censurados por juízes, a mando de Erdogan.”

Sobre Xi Jingpin o destaque é de que “A China de Xi Jinping é a maior prisão do mundo para defensores da liberdade de imprensa, com mais de 115 pessoas detidas em 2021, em condições temerárias para suas vidas. O sistema de “prisão domiciliar em local designado” (RSLD), um eufemismo para confinamento solitário nas “prisões negras” chinesas, onde os detidos são privados de seus direitos e correm o risco de tortura, é comumente usado para silenciar jornalistas que não seguem a narrativa oficial. Kunchok Jinpa, importante fonte de informações sobre o Tibete, morreu em fevereiro de 2021 em consequência dos maus tratos na prisão, assim como o ganhador do Prêmio Nobel da Paz e do Prêmio Liberdade de Imprensa da RSF, Liu Xiaobo, e o comentarista político Yang Tongyan, em 2017.”

Sobre Salva Kiir, a ONG cita uma ameaça direta de que iria matar jornalistas, feita por ele em um discurso, além de nomear uma série de repórteres que cobriam pautas contrárias ao governo e efetivamente foram assassinados. No discurso, o presidente do Sudão do Sul teria dito que “Liberdade de expressão não significa que vocês podem trabalhar contra o seu país. E se qualquer um deles [os jornalistas] não sabe que este país matou gente, nós demonstraremos isso um dia.” 

Já quanto a Bolsonaro as principais acusações são de que ” Desde as eleições em 2018, o presidente, sua família e seu círculo aprimoraram um sistema extremamente bem azeitado de comunicação. Nas redes sociais, exércitos de apoiadores e robôs retransmitem e amplificam os ataques que visam desacreditar a imprensa, apresentada como inimiga do Estado.”

A ONG alega que “Um dos alvos favoritos da família Bolsonaro é a rede Globo, qualificada como “TV Funerária” por ter tido a ousadia de informar os brasileiros sobre a evolução da epidemia de Covid-19 e o número de óbitos ligados ao vírus. A RSF registrou mais de 180 ataques contra o grupo em 2020, acusado de querer “trair” e “destruir” o país” e destaca que “Como ocorrido com Patricia Campos Mello, muitas mulheres jornalistas foram vítimas de ataques sexistas e são obrigadas a trabalhar em um ambiente tóxico, a mercê do linchamento digital de partidários do presidente.”

Ataques, portanto, na definição dada pela ONG ao tratar do Brasil são quaisquer críticas direcionadas a órgãos ou agentes de imprensa.

SEM PRISÕES, SEM VIOLÊNCIA, SEM MORTES

As palavras morte, morto, assassinato, preso e prisão fazem parte das narrativas usadas pela ONG nos textos sobre as ações da maioria dos mandatários listados.

Por exemplo: ao citar o chefe do Paquistão, a ONG menciona que “Desde a chegada de Imran Khan ao poder, casos de censura descarada se multiplicam: interrupção da distribuição de jornais, chantagem com anúncios publicitários, bloqueio de sinais de transmissão de canais de televisão… Jornalistas que cruzam a linha vermelha são frequentemente alvos de sequestro, tortura e ameaças.”

Já ao falar sobre o principe saudita Mohamen ben Salmane a informação é de que “O terrível assassinato do editorialista do The Washington Post Jamal Khashoggi, esquartejado no consulado saudita em Istambul, foi um golpe fatal a qualquer insinuação de crítica e mostrou toda a brutalidade da repressão contra os jornalistas independentes, mesmo além das fronteiras do reino. Entre os 30 jornalistas presos na Arábia Saudita, há personalidades muito seguidas nas redes sociais, sobretudo no Twitter, e, portanto, potencialmente muito influentes. Outros são apresentadores que cometeram o erro de encorajar indiretamente as reformas, abordando temas sensíveis em seus programas e pedindo a abertura do debate.

Já sobre a primeira-ministra Sheik Hasina, o texto informa que ela é autora da Lei de Segurança Digital, sobre a qual a ONG explica que “A Lei de Segurança Digital permite que partidários de Sheika Hasina assediem todos os jornalistas e blogueiros cuja expressão incomode o poder estabelecido. Cerca de dois anos após sua implementação, o dispositivo levou a julgamento quase 400 pessoas, incluindo mais de 70 jornalistas e blogueiros. Aqueles que são presos devem suportar condições deploráveis de detenção – a ponto de um deles, Mushtaq Ahmed, ter morrido na prisão em fevereiro de 2021. Em campo, o braço armado de Sheika Hasina é personificado por apoiadores de seu partido, a liga Awami, e por aqueles de seu ramo estudantil, a liga Chhatra. Sempre que um movimento social ou eleições agitam as ruas, esses ativistas perseguem, assediam ou agridem os repórteres para impedi-los de cobrir os acontecimentos, culminando em verdadeiros linchamentos. A maioria das vítimas acaba no hospital. Em alguns casos, no necrotério.”

Sobre o chefe iraniano, a ONG informa: “À frente das principais instituições políticas, militares e judiciais do país, Ali Khamenei ordena a detenção e a condenação dos jornalistas a pesadas penas de prisão, incluindo a pena de morte.”

Sobre Bolsonaro, não há menção a prisões, mortes, sequestros em seu nome contra a imprensa, mas há uma acusação direta: a ONG diz que ele é “grosseiro“.

PRISÕES DETERMINADAS POR CARECA DO STF NÃO FORAM CONSIDERADAS: LISTA É APENAS SOBRE CHEFES DE ESTADO

Quem não quer ser criticado, fique em casa", dizia Alexandre de Moraes em  2018 - Revista Oeste

Nos últimos anos os grandes ataques contra a imprensa têm se originado na mais alta casa judiciária.

Entretanto, Alexandre de Moraes (que determinou a prisão do blogueiro Wellington Macedo por “ataques” (críticas) aos membros da casa maior do poder judiciário) não foi mencionado. O mesmo ministro também determinou a prisão, diversas vezes, do jornalista Oswaldo Eustáquio: numa delas pelo fato de que o jornalista tinha se posicionado a favor do impeachment dos membros do STF.

O Careca do STF também tomou decisões censoras contra diversos perfis jornalísticos e opinativos, limitando tanto a liberdade de imprensa, como a liberdade de pensamento e expressão num sentido mais amplo.

Outra alta casa do judiciário, o Superior Tribunal Eleitoral, tem pressionado big techs a estabelecer sanções a jornalistas sob a escusa do “combate às fake news”. Um detalhe curioso é que a casa é presidida por um juiz conhecido por usar fake news em justificativa de decisão judicial. Alexandre, Barroso e seus atentados contra a liberdade de imprensa e de pensamento não poderiam, contudo, entrar na lista da RSF, já que esta diz respeito apenas a chefes de Estado.

VEJA OUTROS RELATÓRIOS RECENTES SOBRE LIBERDADE DE IMPRENSA NO BRASIL

Quem? números vem publicando informações sobre a forma como os relatórios de “violência contra jornalistas” e “ataques à imprensa” no Brasil vêm sendo fabricados e divulgados nos últimos anos por diversos organismos de representação da classe.

Neste link o convidado João F. Amorim explica detalhadamente o que há por trás da explosão de “violência contra jornalistas” divulgada por duas instituições: a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT). Aqui e aqui eu comento as metodologias utilizada na obtenção de dados de dois outros relatórios.


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