Checagem Covid-19

Folha publica notícia falsa sobre risco de morte por covid: grande imprensa divulga em massa

A Folha de S. Paulo publicou ontem uma matéria com o seguinte título: “Negros têm mais risco de morrer de Covid mesmo no topo da pirâmide social, diz estudo”. A informação contida na manchete é falsa: o estudo mencionado pela Folha usou dados parciais de mortes por covid-19 em 2020. De fato, em 2020 pretos e pardos (“negros”) somados contabilizaram a maior parte dos mortos por covid-19. É isto que revela o Boletim Epidemiológico Especial 43, o último publicado pelo Ministério da Saúde no ano passado.



Entretanto, uma vez que existem dados atualizados, é neles que nos devemos basear, e segundo os dados atuais, disponíveis a partir da soma dos números informados no boletim epidemiológico 81 com aqueles do boletim epidemiológico 43 a maior parte das mortes por covid-19 aconteceu entre brancos (224 715) contra “apenas” 216 278 entre pretos e pardos.


Dados do último boletim epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde de fato indicam quem no ano passado a maioria dos mortos pela doença eram “pretos e pardos”.
Já os dados de 2021 apresentam prevalências bem diferentes (os dados totais são a soma dos dois relatórios: a tabela é zerada na virada de cada ano epidemiológico).

Some-se a isso o fato de que pretos e pardos compõem 56,4% da população brasileira e brancos compõem 42,7% e temos que atualmente os documentos mostram que o risco de morrer por covid-19 é maior entre brancos do que entre “negros” (pretos e pardos).

Não há problemas, a priori, em proceder uma análise estatística com base em dados extemporâneos. Os autores do estudo pareciam estar particularmente interessados na prevalência correlacionada por profissão e etnia, este conjunto de informações não está disponível em uma mera análise dos boletins epidemiológicos e depende de informações (mais tardias) disponibilizadas pelo Sistema de Informação de Mortalidade. Talvez façam uma outra análise com base nos dados, mais robustos, de 2021, utilizando a mesma metodologia e buscando responder as mesmas perguntas com base nos dados dos dois anos acumulados. Espero que façam, e que divulguem.

Entretanto, a extemporaneidade da informação precisa ser claramente anunciada, sobretudo quando existem informações atualizadas em sentido contrário. Um estudo baseado em dados de 2020 não é necessariamente um estudo enganoso, uma manchete anunciando dados antigos como se fossem atualizados é. Uma manchete alternativa que a Folha poderia ter usado se quisesse divulgar uma notícia correta seria: “Em 2020, risco de morrer de Covid foi maior entre negros, mesmo no topo da pirâmide social”, mas isso talvez reduzisse muito o impacto da publicação.

FAKE NEWS FOI COMPARTILHADA MACIÇAMENTE POR GRANDE IMPRENSA E PORTAIS DE ATIVISMO

Diversos veículos noticiosos e de ativismo como Gaúcha Zero Hora, TV Cultura, Revista Fórum, Notícia Preta, UOL, Valor Econômico, Poder 360 entre outros ajudaram a Folha de S. Paulo a disseminar a notícia falsa.

Um dos poucos veículos de grande visibilidade que não disseminou a informação desonesta foi a Gazeta do Povo. Pelo contrário, no começo do mês o portal publicou um artigo de minha autoria em que apresentei a evolução dos dados étnicos de mortes por coronavírus no Brasil ao longo da pandemia, e a forma como ativistas racialistas exploraram o assunto quando era vantajoso para o discurso e ignoraram a prevalência étnica quando as mortes voltaram a acometer majoritariamente pessoas brancas.



Uma análise dos 81 boletins epidemiológicos publicados até o momento revela que durante a maior parte da pandemia os dados foram desfavoráveis aos brancos, com um maior número absoluto e proporcional de mortes nesta faixa da população. Ativistas e imprensas construíram e sustentam a narrativa com base num pequeno período do ano passado e do começo deste ano, em que as prevalências se inverteram.

9 comentários

    1. Oi, Marcelo. Obrigado!

      Os dados que utilizei são os da PNAD 2019. De fato não deixei isso claro no texto. Os dados do Censo 2010 são os dados censitários mais atualizados, mas os dados da PNAD 2019 são os dados amostrais mais atualizados. Ambos podem ser utilizados, mas é preciso indicar a referência.

      Vou editar para inserir a fonte que usei, obrigado.

      https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18319-cor-ou-raca.html

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      1. Obrigado pela informação. Gostaria de observar que entre os pardos também se contam os caboclos. E é claro que posso estar errado, mas pessoalmente acredito que muitas das pessoas que se declararam negras e pardas assim o fizeram pra se beneficiarem das cotas.

        Curtido por 1 pessoa

      2. Sem sombra de dúvidas. Sowell descreve que o número de pessoas classificadas dentro de um grupo privilegiado tende a aumentar tão logo o estabelecimento dos privilégios é dado.

        Quem antes se classificava ou era classificado como X passa a classificar e a ser classificado como Y tão logo os privilégios vão sendo estabelecidos para Y.

        Isto de fato aconteceu no Brasil. Os últimos Censo e PNADs têm visto um aumento progressivo dos pretos e pardos e uma diminuição progressiva dos brancos.

        Escrevi um artigo para a Gazeta (deve sair esta semana) em que menciono isto en passant, por sinal.

        (Entendi sua resposta como uma ressalva à própria fiabilidade dos dados de negros vs brancos na população, você está certo, mas não temos outras fontes que usar senão o IBGE. Neste sentido talvez fosse melhor mesmo usar os dados do Censo 2010, embora também não fosse alterar a direção do argumento. 🙂 )

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    2. Curioso, parece que o link que você postou (que está quebrado) era sobre a questão da prevalência étnica populacional segundo o IBGE, mas ele acaba apresentando como sugestão de post recente uma matéria sobre o tal estudo (com o mesmo tipo de “falha” que o da Folha).

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  1. “O levantamento feito pelo G1 mostra que 10.454 candidatos que antes se declaravam brancos passaram a ser declarar negros (a soma de pardos e pretos, segundo definição do IBGE). Juntando com os amarelos e indígenas que também passaram a se declarar negros, o número sobe para 10.779 (ou 42% do total). O maior contingente é de brancos que agora dizem ser pardos. São 9.944.

    (…)

    O levantamento do G1 mostra ainda que 8.365 candidatos que se declaravam pardos agora dizem ser brancos. Outros 3.319 que se diziam pardos agora se declaram pretos. E 2.559 fizeram oposto: antes constavam como pretos e agora são pardos.

    Há também 294 candidatos que se declaravam pretos e agora aparecem como brancos. Outros 510 que diziam ser brancos agora preencheram o dado como sendo pretos.”

    Lido desta forma os dados apontam uma tendência (a mesma que vínhamos discutindo), mas não com a força que manchete, lead e gráficos da matéria do G1 induzem.

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