"racismo"

Depois da Agência Lupa, BBC altera texto de fake news sobre “expressões de origem racista”

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“Esta reportagem foi atualizada para refletir contestações sobre a origem de algumas palavras. Veja abaixo a versão completa”, assim começa a nova versão de um texto publicado pela BBC (compartilhado pelo UOL) baseado em pseudoetimologias e pseudosemânticas de palavras e expressões da língua portuguesa tais como “mulata”, “nas coxas”, “disputar a nega” e “meia tigela”.

Nos últimos dias, graças a algumas postagens feitas por grandes veículos de mídia, grandes empresas e órgãos públicos em alusão ao Dia da Consciência Negra, a coisa ficou preta para algumas expressões do idioma, que se viram denegridas depois que Agência Lupa, Metrô Rio, Defensoria Pública do Estado da Bahia e outras publicaram listas negras contendo termos e frases que não deveriam mais ser utilizadas.

A primeira a reconhecer os erros na listinha foi a Lupa. O reconhecimento veio muito a contragosto, uma autochecagem feita nas coxas, num mood “erramos, mas não erramos”. A coisa ficou tão preta que a Lupa se viu na emergência de ter que publicar uma segunda errata, se desculpando pelo fato de que a primeira errata não parecia muito com uma errata. Veja nos tuítes abaixo.




Agora a BBC, que havia divulgado um texto originalmente intitulado “Dia da Consciência Negra: 10 expressões do português de origem racista” deu aquela maquiada básica no texto original. O portal UOL compartilhou o mesmo texto, de autoria da multinacional londrina.

Sem se desculpar pela fake news, a empresa britânica alterou um pouquinho a publicação, sem mexer a essência. Uma das modificações está logo no título, que passou a ser “Dia da Consciência Negra: 10 expressões do português que geram controvérsia sobre racismo“.

CONTROVÉRSIA DE MEIA TIGELA

A essência da “controvérsia” relacionada aos termos reside no fato de que alguns ativistas do movimento cof cof negro e meia dúzia de cof cof intelectuais são incapazes de distinguir etimologia e semântica.

Etimologia é um campo dos saberes linguísticos preocupado com a origem, a formação das palavras. O tempo da etimologia é pretérito, está para os estudos do idioma como a arqueologia está para os estudos biológicos, históricos e sociológicos. A semântica é o campo dos estudos linguísticos preocupado com os significados correntes dos termos e expressões. Seu tempo é o hoje.


À esquerda, a publicação original salva para a posteridade na ferramenta Wayback Machine; à direita, a fake news atualizada no site da BBC.

Embora a etimologia, como campo de estudo, não seja dispensável e nos ajude a entender não apenas como a língua evolui, mas a compreender alguns termos com os quais ainda não tínhamos contato (através do conhecimento do significado histórico deste ou daquele radical, por exemplo), dizer que uma palavra teve no passado um significado X não implica em dizer que ela tenha hoje o mesmo significado.

Ainda que pudéssemos atestar que as palavras e expressões denegridas pela BBC, pelo UOL, pela Lupa, pela Defensoria Pública da Bahia realmente tivessem significado racista lá em 1727 ou em 1643, isto tem pouca relevância para a compreensão de uma mensagem dita hoje utilizando-se as mesmas palavras e expressões.

O que é relevante é compreender que quando Caetano Veloso canta “Sou um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral” ou quando o Itamar Assumpção cantava “Sou mulato, sou mestiço, sou corajoso de sobra, só brigo quando preciso” suas intenções não são racistas e qualquer pessoa cognitivamente saudável e bem alfabetizada o compreende.

Acontece que a coisa ainda fica mais preta, porque para a maioria (talvez totalidade) das expressões e termos afirmados como tendo origem racista pelos diversos veículos, esta origem não pode ser comprovada (e, em alguns casos, pode ser rejeitada).

Ao contrário do que o UOL, a BBC e a Defensoria Pública da Bahia afirmaram, mulato (assim como os demais termos) sequer têm comprovada origem (láááááááááááááá no passaaaaaaaaaaaadoo) racista. Assim como no caso da Lupa, o UOL e a BBC não publicaram bem uma errata. Publicaram um “veja bem” em que acrescentam ao texto original “outras visões”. E é o que tem pra hoje.

ALTERAÇÕES FEITAS NAS COXAS

Na nova versão da fake news fabricada pela BBC e compartilhada pelo UOL nota-se algumas diferenças em relação ao texto original. A mais marcante, além do título, é a inserção das “palavras dos especialistas”. Um dos “especialistas” inseridos foi a linguista Maristela Gripp que diz, sobre a palavra “mulata”, que a “Não haveria nenhum problema com a palavra se não vivêssemos em um contexto racista. Ela passou a ser empregada com um sentido pejorativo”.

Tem que avisar isso urgente pro Caetano Veloso, um dos maiores poetas lusófonos e influenciadores do processo cotidiano de construção de nosso idioma. Alguém tem que correr no Leblon pra avisar pro baiano que a palavra agora é “empregada com um sentido pejorativo”. Ele a empregou (pela enésima vez) em uma das músicas de seu último disco (como faz recorrentemente desde o primeiro álbum). Talvez não tenha sido avisado.

Outra alteração foi a posição de “criado mudo”, que era a primeira palavra denegrida na postagem original e foi parar no final do texto. Além da mudança de lugar, a BBC acrescenta a informação de que a palavra tem provável origem na tradução quase literal de um termo da língua inglesa, não podendo ter sido originada na forma como donos de escravos brasileiros se referiam aos seus servos.


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