Leis sexistas

Carla Zambelli propõe nova lei sexista contra homens e alega dados da Sociedade Brasileira de Mastologia

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Há três meses eu vi uma fake news divulgada pela antropóloga Debora Diniz com base em uma matéria do Le Monde Diplomatique Brasil. A informação era de que 70% (no texto do Le Monde)/75% (no post da Debora) das mulheres diagnosticadas com câncer são abandonadas pelo marido. Citação de fonte acadêmica? Nenhuma.

Perdi uma tarde sentado na frente do computador e no fim dela tinha lido cerca de uma dezena de estudos sobre o tema. Nenhum confirmava o percentual. O mais interessante deles era uma revisão de 2001, que já naquela época tratava o tema como uma lenda urbana: eis o título “Partner Abandonment of Women with Breast Cancer: Myth or Reality?” (Abandono de mulheres com câncer de mama pelos parceiros: mito ou realidade?”) e eis um trecho do resumo: “O pequeno número de estudos realizados sobre o tema desde 1988 não revelou dados que confirmassem o modelo de crença popular, que propõe que mulheres com câncer de mama sejam abandonadas por seus parceiros. As evidências parecem apoiar o modelo de crença clínica de que a maioria das relações conjugais permanece estável após o câncer de mama e que o colapso é mais provável nas relações com dificuldades pré-existentes.


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A maioria dos outros estudos que li eram posteriores a este mencionado acima, e confirmavam seus achados. Não há aumento significativo e generalizado das separações após diagnóstico de câncer, nem para homens nem para mulheres. A maioria dos maridos e das esposas ficam ao lado de seus parceiros durante o tratamento.

Alguns estudos acham alguma diferença entre os sexos ou algum aumento em relação aos casais onde não haja diagnóstico da doença, mas mesmo nestes estudos os percentuais encontrados são inferiores aos 70% ou 75% indicados por Debora e Le Monde. A maioria dos estudos não indicou diferença significativa nem entre os sexos nem em relação aos casais que não enfrentam a doenças. Algumas das pesquisas apontaram que parece haver um aumento das separações quando o câncer envolve diretamente o aparelho reprodutivo (testículos, ovário…), mas também neste caso os percentuais não se aproximam nem de longe dos 70%. São estudos baseados em registros oficiais de divórcio (como um feito na Noruega outro na Dinamarca) ou em acompanhamento clínico de voluntários (como alguns feitos no Canadá, nos EUA e em Portugal).

Por que estou falando disso de novo? Porque cerca de um mês depois de a Debora Diniz e o Le Monde publicarem a notícia falsa a deputada Carla Zambelli propôs um projeto de lei baseado na fake news. Trata-se do PL 3245/2021 que prevê que mulheres, e apenas mulheres, com câncer em remissão (isto é: tratado e controlado) tenham prioridade nos concursos públicos (ficariam na frente dos concorrentes que tivessem tirado a mesma nota, inclusive dos homens em mesma situação de saúde).

No projeto ela ainda afirma (na sessão de justificativas) que “Segundo dados da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) divulgados em entrevista à Rádio CBN no ano de 2019, 70% (setenta por cento) das mulheres diagnosticadas com câncer de mama são abandonadas por seus cônjuges, trazendo inclusive dificuldades de ordem financeira a essas pessoas.”


Conselho de Ética arquiva representação contra Carla Zambelli | Agência  Brasil
Deputada justificou o projeto em dados da Sociedade Brasileira de Mastologia que teriam sido divulgados em programa de entrevistas da CBN. O programa de fato existe, mas os dados foram divulgados por uma ativista, não médica nem representante da SBM, que não indicou nenhuma fonte para o percentual alegado.

Acontece que a tal entrevista não tinha nenhum representante do corpo diretor do órgão (uma das entrevistadas era médica mastologista, filiada ao órgão, mas não fala em nome da entidade), e a fala atribuída à SBM na verdade saiu de uma ativista, responsável por uma ONG que oferece perucas a mulheres com câncer, e que não é médica.

Você pode ouvir a entrevista clicando aqui: a fala específica sobre o percentual de abandonos é aos 36 minutos, você pode conferir pela voz das entrevistadas apresentadas no começo do programa que quem apresenta este percentual não é a médica Fernanda Torras e sim a ativista Mariana Robrahn. Não há citação à SBM – Sociedade Brasileira de Mastologia nem a nenhuma outra fonte, é apenas um percentual chutado ao léu.

Temos uma máquina de produção em intensa atividade: dum lado você alimenta a máquina com uma gigantesca quantidade de fake news sobre toda a sorte de desigualdade inventada de gênero, sexualidade e raça. Do outro lado, saem prontinhas as leis discriminatórias e os cargos públicos gerados por e em torno da demagogia identitária.

SOLICITAÇÃO DE ESCLARECIMENTO

Enviei mensagem à Sociedade Brasileira de Mastologia questionando se o órgão de fato produziu algum estudo ou coleta de dados que sustente a alegação de que mais de 70% das mulheres diagnosticadas com câncer são abandonadas pelos seus maridos. Questionei se, diante da alegação feita pela deputada em seu projeto de lei, a SBM pretende se pronunciar sobre a verdade ou falsidade do percentual informado e da origem dos dados.

Cobrei a entidade também através de um post em seu perfil oficial no Instagram, no qual uma outra fake news era refutada pelo órgão e marquei a entidade em postagens nas redes sociais de @quemnumeros. Espero que desta forma fique esclarecido de onde, de fato, a deputada Carla Zambelli extraiu os dados de mais de 70% de abandono conjugal de mulheres com câncer, percentual este incompatível com a literatura acadêmica relacionada ao tema.


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CONHEÇA, ACOMPANHE E OPINE SOBRE O PROJETO NO SITE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

Para ler o inteiro teor do projeto clique neste link. Para acompanhar a tramitação, clique aqui. E para opinar na enquete aberta pelo portal da Câmara dos Deputados, o link é este.

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