Marcelo Adnet e a Revolta da Vacina

Marcelo Adnet e a Revolta da Vacina

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“Vá estudar história” costuma ser um dos mantras preferidos da turma “progressista”. Marcelo Adnet, um dos ícones desta tribo, talvez não tenha estudado a matéria o suficiente. Em um tuíte recente publicado por ele e retuitado pela organização cyberterrorista Sleeping Giants Brasil, o humorista meio sem graça disse que “Quando estava na escola e estudei a Revolta da Vacina, não conseguia entender como parte da população se levantou contra a vacinação em tempos de pandemia. Aquele menino jamais imaginou que viveria pra ver a Revolta de novo, desta vez com apoio do governo.”

Adnet critica, na postagem, a postura do Presidente da República brasileiro, que é contrário às normas estatais punitivas contra quem decidir não se submeter à vacinação experimental e emergencial contra a Covid-19. Medidas que proíbem os cidadãos não vacinados de trabalhar, estudar e mesmo transitar livremente pelas cidades e estados vêm sendo implementadas por diversos prefeitos e governadores com a cumplicidade e cobertura do Poder Judiciário.

A Revolta da Vacina foi um marco importante na história brasileira, e está presente em qualquer coleção de livros didáticos de História. Um detalhe curioso é que o consenso entre historiadores é de que a Revolta da Vacina foi motivada por uma decisão equivocada do governo Rodrigues Alves que implementou medidas muito semelhantes àquelas hoje tomadas por gente como Eduardo Paes, João Dória e Eduardo Leite em seus domínios.

O texto em itálico a seguir foi copiado ipsi literis do portal que leva o nome do próprio sanitarista responsável pelas medidas que desencadearam a Revolta e os negritos são meus. Veja como o site da Fiocruz descreve o episódio histórico:


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A Revolta da Vacina

Em meados de 1904, chegava a 1.800 o número de internações devido à varíola no Hospital São Sebastião. Mesmo assim, as camadas populares rejeitavam a vacina, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes. Afinal, era esquisita a idéia de ser inoculado com esse líquido. E ainda corria o boato de que quem se vacinava ficava com feições bovinas.

No Brasil, o uso de vacina contra a varíola foi declarado obrigatório para crianças em 1837 e para adultos em 1846. Mas essa resolução não era cumprida, até porque a produção da vacina em escala industrial no Rio só começou em 1884. Então, em junho de 1904, Oswaldo Cruz motivou o governo a enviar ao Congresso um projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacinação em todo o território nacional. Apenas os indivíduos que comprovassem ser vacinados conseguiriam contratos de trabalho, matrículas em escolas, certidões de casamento, autorização para viagens etc.

Após intenso bate-boca no Congresso, a nova lei foi aprovada em 31 de outubro e regulamentada em 9 de novembro. Isso serviu de catalisador para um episódio conhecido como Revolta da Vacina. O povo, já tão oprimido, não aceitava ver sua casa invadida e ter que tomar uma injeção contra a vontade: ele foi às ruas da capital da República protestar. Mas a revolta não se resumiu a esse movimento popular.

Toda a confusão em torno da vacina também serviu de pretexto para a ação de forças políticas que queriam depor Rodrigues Alves – típico representante da oligarquia cafeeira. “Uniram-se na oposição monarquistas que se reorganizavam, militares, republicanos mais radicais e operários. Era uma coalizão estranha e explosiva”, diz o historiador Jaime Benchimol.

Em 5 de novembro, foi criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. Cinco dias depois, estudantes aos gritos foram reprimidos pela polícia. No dia 11, já era possível escutar troca de tiros. No dia 12, havia muito mais gente nas ruas e, no dia 13, o caos estava instalado no Rio. “Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados”, dizia a edição de 14 de novembro de 1904 da Gazeta de Notícias.

Tanto tumulto incluía uma rebelião militar. Cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha enfrentaram tropas governamentais na rua da Passagem. O conflito terminou com a fuga dos combatentes de ambas as partes. Do lado popular, os revoltosos que mais resistiram aos batalhões federais ficavam no bairro da Saúde. Eram mais de 2 mil pessoas, mas foram vencidas pela dura repressão do Exército.

Após um saldo total de 945 prisões, 461 deportados, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas de conflitos, Rodrigues Alves se viu obrigado a desistir da vacinação obrigatória. “Todos saíram perdendo. Os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola. A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento ascendente de adesão à vacina”, explica Benchimol. Mais tarde, em 1908, quando o Rio foi atingido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, o povo correu para ser vacinado, em um episódio avesso à Revolta da Vacina.


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As vacinas contra varíola se demonstraram úteis e eficazes. A varíola é a única doença totalmente erradicada por uma vacina, aliás. Entretanto, a obrigação de se tomar o imunizante, proposta por Oswaldo Cruz e aplicada por Rodrigues Alves, não é vista pela maioria dos historiadores como um acerto, mas como um erro, que muito ao contrário de acelerar a imunização da população carioca, atrasou o andamento da vacinação.

A implementação de medidas restritivas idênticas às aplicadas por Paes, Dória, Leite e cia ilimitada impulsionou a desconfiança em uma população que, até então, estava cada vez mais convencida dos benefícios da medida profilática.

A história não se repete, isto é lenda. Elementos da história se repetem com frequência, mas nada garante que seremos levados aos mesmos resultados. As doenças não são as mesmas, as vacinas não são as mesmas, a eficácia das vacinas definitivamente não é a mesma (enquanto a eficácia da vacina contra varíola é definitivamente 100%, as de Covid-19 parecem flutuar em algum ponto incerto entre o 0% e o 100%) e os tempos não são os mesmos. Para quem é do time do “vai estudar história”, contudo, Adnet precisa estudar mais, que tá pouco.


PROTESTOS RECENTES AO REDOR DO MUNDO CONTRA “PASSAPORTES DE VACINA”

No Brasil ainda não se viu protestos públicos recentes contra a repetição por prefeitos e governadores das medidas tomadas cerca de 110 anos atrás, mas em países como Itália, Holanda, Alemanha, França e Áustria respostas semelhantes têm se intensificado.

| ALEMANHA

| FRANÇA

| ÁUSTRIA

ITÁLIA

| HOLANDA


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