Identitários tipicamente têm dificuldade de leitura

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Leia atentamente, palavra por palavra, saboreando com calma, a seguinte definição de café da manhã: “Café da manhã, ou desjejum, é o nome que se dá no Brasil à primeira refeição do dia, geralmente consumida logo após acordar, tipicamente composta de café, pão, alguma gordura e laticínios”

Vamos a mais uma: “Capital é a cidade onde localizam-se as sedes administravas e políticas de um país, estado, província et cetera, tipicamente a cidade com maior população do território sediado por ela”

Em algum momento te passou pela cabeça, com base na definição acima, que uma refeição que não tenha café não possa ser chamada de café da manhã? Em algum momento te passou pela cabeça dizer que Florianópolis não é a capital de Santa Catarina?

Tenho certeza de que você concorda que o café da manhã brasileiro é geralmente composto de pão e café, além de laticínios e gorduras (manteiga ou margarina), mas tenho também certeza de que você entende que há outras opções de café da manhã possíveis além desta mais típica. Por exemplo, ultimamente tenho tomado apenas shake de proteína e fibras no café da manhã. Estou de dieta.

Tenho certeza de que você concorda que de modo típico as capitais são as cidades mais populosas do país ou estado que sediam, mas tenho também certeza de que você sabe que Washington, DC é menos populosa que Nova York, que Brasília é menos populosa que São Paulo e que Olympia é menos populosa que Seattle.

TIPICAMENTE O ADVÉRBIO “TIPICAMENTE” ADMITE EXCEÇÕES

O advérbio “tipicamente” nos textos acima significa “característicamente”, “geralmente”, “de modo recorrente”, “frequentemente”, “exemplarmente”, “na maioria ou em boa parte das vezes”. Ele não restringe as definições apresentadas antes, ele marca estas definições com exemplos claros e corriqueiros, exemplos típicos.

Veja mais este exemplo típico do uso do advérbio “tipicamente”, retirado do texto Homens e mulheres são diferentes — e a explicação está na biologia, do blog Etologia e Sociobiologia: “Quando os níveis de estrogênio estão altos, as mulheres tornam-se ainda melhores nas tarefas que tipicamente executam melhor que os homens, como a fluência verbal. Quando os níveis estão baixos, elas ficam melhores em tarefas que os homens tipicamente fazem melhor, como a rotação mental.”

Perceba que o trecho não indica que mulheres sempre tenham melhor fluência verbal que homens e que homens sempre tenham melhor rotação mental que mulheres. Ele indica que isto acontece na maior parte dos casos. É isto o que qualquer leitor hábil, atento e honesto dirá ter compreendido.

“Tipicamente” é o advérbio do momento, desde que identitários brasileiros se revoltaram em bando contra o mais recente artigo de Antonio Risério para a Folha de S. Paulo.

Acontece que Risério apontou a obviedade de que brancos, asiáticos e judeus possam ser vítimas de racismo. E a outra obviedade de que negros possam ser agentes de crenças e de comportamentos racistas. Ele indicou a também obviedade de que as narrativas e ações sectárias, revanchistas e vitimistas cultivadas por ideólogos e ativistas identitários fomentam o racismo cometido por negros e contra membros de outras etnias.


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Ativistas do movimento negro e simpatizantes brancos do mesmo movimento não gostaram de ser denunciados, xingaram muito no Twitter e desandaram a apresentar prints e links de uma definição apresentada pelo Google para o verbete, que diz que racismo é (entre outras definições) o “preconceito, discriminação ou antagonismo por parte de um indivíduo, comunidade ou instituição contra uma pessoa ou pessoas pelo fato de pertencer a um determinado grupo racial ou étnico, tipicamente marginalizado ou uma minoria.”

De fato, assim como capitais são tipicamente as maiores cidades do país, estado ou província que sediam, racismo é tipicamente cometido por grupos étnicos de maior status dentro de uma sociedade contra grupos de menor status (“minorias”). Tipicamente, as capitais dos estados brasileiros são as cidades mais populosas. Florianópolis é menos populosa que Joinville. Foge do que é típico, e não deixa de ser capital de Santa Catarina por este motivo.

Em seu texto, Risério não nega que as vítimas mais frequentes de racismo no Brasil e no continente americano, ainda fortemente marcado pelos efeitos socioculturais do mercado escravo negreiro, sejam os negros. Ele nega que racismo tenha uma seta necessária pela qual apenas membros de uma etnia possam cometer e apenas membros de outra possam sofrer.

É que o identitarista raivoso do movimento negro tipicamente tem dificuldades enormes com semântica: desconhece o significado de palavras e expressões como mulato, macumbeiro, feito nas coxas, racismo ou tipicamente. Aí tipicamente dá nisso aqui embaixo:


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Uma resposta para “Identitários tipicamente têm dificuldade de leitura”.

  1. Mais uma matéria brilhante. Chamo a atenção pro comentário do Lucas: “branco não é uma minoria”. Primeiro eles dizem que a maioria da nossa população é negra ou parda (quando não dizem que “não existem brancos no Brasil”, como já vi). Depois vêm com essa. Tudo neles se baseia na conveniência.

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