O uso de pesquisas de percepção como metodologia na fabricação de dados vitimistas

Duas ONGs se reuniram para conduzir uma pesquisa a fim de investigar se jornalistas do sexo feminino e jornalistas que se relacionam eroticamente com pessoas do mesmo sexo sofrem muitos “ataques” na internet. A ONG feminista Gênero e Número e a ONG de jornalismo Repórteres sem Fronteiras conduziram um, digamos, estudo baseado em respostas dadas por jornalistas que atenderam a um questionário online proposto por ambas as entidades.

Como já falamos em outros posts, um dos mecanismos mais recorrentes (e eficazes) da máquina de propaganda do ativismo identitário é omissão de um grupo controle na metodologia de suas pesquisas e análises. Um dado estatístico sobre as mulheres ou sobre os LGBTs ou sobre os negros só pode sequer começar a ser considerado como especialmente significativo para estas “minorias” se é demonstrado satisfatoriamente que aquela mesma variável afeta de maneira menos impactante a homens ou a heterossexuais ou a brancos.

Não há controles na metodologia desta pesquisa: as perguntas que foram direcionadas a jornalistas mulheres e LGBTs não foram feitas também a homens heterossexuais para que se pudesse comparar os resultados.

Trabalhemos com o que temos: segundo as duas ONGs, esta foi a distribuição das “violências” alegadas pelas mulheres e pelos LGBTs que responderam ao questionário:



XINGAMENTOS/PALAVRAS HOSTIS

35% dos jornalistas que responderam à enquete disseram ter sido xingados ou recebido palavras hostis na internet, mas será que esta é uma condição à qual mulheres e homossexuais atuantes na imprensa estão especialmente ou exclusivamente sujeitos? Vamos ver em alguns exemplos de “ataques” deste e de outros tipo obtidos através de uma pesquisa de poucos cliques no Twitter?



No tuíte acima o jornalista, homem de esquerda e progressista, Guga Chacra faz alusão à alegada simpatia de Jair Bolsonaro pelo período da Ditadura Militar no Brasil.

Prontamente um seguidor responde de forma ríspida, usando um xingamento como vocativo, além de postar uma foto de vários figurões da ditadura militar ao lado do fundador da empresa em que Guga trabalha.

Independente do que você pensa sobre o tuíte inicial do Guga, não é fato inconteste que ele foi “vítima” aqui do mesmo tipo de “ataque” que figurou como o mais frequentemente pelos entrevistados pela Gênero e Número e pela Repórteres sem Fronteiras? Quantos por cento dos jornalistas homens heterossexuais já foram xingados na internet por conta de algo que publicaram? Não sabemos, não fazemos ideia, porque a Gênero e Número e a Repórter sem Fronteiras não perguntaram isto a homens heterossexuais.

Vamos a mais um exemplo.

“ATAQUE”/DESQUALIFICAÇÃO DO TRABALHO REALIZADO



Comunicadores sociais estão, pela natureza das suas próprias atividades, o tempo todo sujeitos à avaliação crítica do público. Obviamente cineastas, jornalistas, radialistas, diretores de teatro produzem obras que desagradam parte do público e, quando o fazem, ouvem e leem avaliações negativas.

Segundo a Gênero e Número e a Repórteres sem Fronteira, a segunda maior “violência” sofrida pelos jornalistas mulheres ou LGBTs que responderam ao questionário foi “ataque ao trabalho que realizei” e a quarta foi “desqualificação do trabalho”.

Será que se o jornalista Felipe Branco Cruz, repórter de entretenimento da Veja, tivesse respondido ao questionário ele teria respondido positivamente a esta “violência” com base no tuíte acima? Veja bem, nosso amigo Rodrigo afirmou que a matéria realizada por Felipe foi RIDÍCULA, sim, ridícula em letras grandes.

Será mesmo que existe uma tendência específica de que jornalistas mulheres sofram “ataques aos trabalhos que realizam”? Ou será que este é só um efeito natural de ser um comunicador social e estar se submetendo permanentemente à avaliação pública de seus trabalhos?

Vejamos outro exemplo.

“ATAQUES” AO SEXO E/OU À SEXUALIDADE




Ataques “misóginos” ou com “conotação sexual” foram indicados por 19% dos que responderam à pesquisa enquanto 3% indicaram positivamente sobre terem sofridos “ameaças ou ataques à orientação sexual”. Ah, referências demeritórias sobre seu sexo e sobre sua sexualidade são coisas que todos nós sabemos que jornalistas homens e héteros não sofrem, né? Né?

Claro que não é. A internet é um poço sem fundo de ofensas mais ou menos severas, mais ou menos justificadas, mais ou menos ácidas para todos os lados. Obviamente que se a Gênero e Número tivesse se dado ao trabalho de ouvir homens e heterossexuais também receberia destes relatos sobre terem sido ofendidos com base em sexo ou sexualidade por pessoas (inclusive mulheres, como a do print) insatisfeitas (com ou sem justiça) com a qualidade de seus trabalhos.

AMEAÇA DE AGRESSÃO FÍSICA



Este é o meu amigo David Ágape, jornalista investigativo, sendo ameaçado de agressão física por um ativista identitário mulato. O caso aconteceu naquela semana em que o antropólogo Antonio Risério foi acusado por um bando de ativistas de ser “racista”, depois de ter escrito um excelente artigo para a Folha de S. Paulo em que demonstrava com exemplos factuais que negros também podem ser racistas e argumentava que os movimentos identitários promovem este tipo de evento.

Claro que os exemplos acima são anedóticos e (assim como a pesquisa online feita pelas duas ONGs) não têm validade estatística, mas experimente você mesmo ir ao perfil de qualquer 4, 8, 16 ou 65536 jornalistas do sexo masculino, brancos e heterossexuais e me diga se em cada um destes perfis você não encontra facilmente “ataques” como estes acima.

Faça o teste, me conte nos comentários: pode escolher perfis de jornalistas de direita, de esquerda, conservadores, progressistas, liberais, socialistas. Jornalistas esportivos ou culturais. Tanto faz. Sempre haverá um internauta respondendo que a matéria ficou uma bosta, que o jornalista não entende nada ou retuitando a postagem com uma severa e ácida crítica ao conteúdo jornalístico publicado.

Obviamente jornalistas mulheres e jornalistas LGBTs experimentam o que as duas ONGs chamam de “ataques” na internet, mas não parece haver motivos – e se existem eles não são demonstrado na pesquisa das duas ONGs – para se acreditar que esta seja uma condição à qual especialmente jornalistas mulheres e jornalistas LGBTs estão expostos.

O risco de sofrer xingamentos, ironias, desqualificações, referências negativas sobre a própria sexualidade e o próprio sexo e até mesmo ameaças de violência real é uma realidade para qualquer pessoa que tenha uma rede social. E será mais acentuado, por motivos óbvios, para aquelas pessoas que se expõem de modo mais intenso: jornalistas, blogueiros, influencers, artistas. Não é porque você é mulher, queridinha! Não é porque você é gay, queridão.


Se há alguma diferença, talvez esteja na hipersensibilidade, na extrema fragilidade emocional, na fraqueza psicológica que algumas mulheres e de alguns LGBTs, que pretendem viver o mundo adulto da comunicação social, da internet e das redes sociais como se fossem crianças de menos de 4 anos de idade brincando com os priminhos mais velhos e sendo classificados como café-com-leite. Aí não dá. Não dá pra ser empoderado e café-com-leite ao mesmo tempo.

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